Por Lima Barreto (1922)
Foi, por fim, à presença do doutor. Krat gostou do homem. Tinha um olhar doce, os cabelos já grisalhos, apesar de sua fisionomia moça, umas mãos alvas, polidas.
Perguntou-lhe o médico com muita macieza de voz:
— Que sente o senhor?
Krat Ben Suza foi-lhe dizendo logo o terrível mal no estômago de que vinha sofrendo, há tanto tempo, mal que aparecia e desaparecia mas que não o deixava nunca. O doutor Adhil Ben Thaft fê-lo tirar o paletó, o colete, auscultou-o bem, examinou-o demoradamente, tanto de pé, como deitado, sentou-se depois, enquanto o negociante recompunha a sua modesta toilette.
Suza sentou-se também, e esperou que o médico saísse de sua meditação. Foi rápida. Dentro de um segundo, o famoso clínico dizia com toda segurança:
— O senhor não tem nada.
O humilde vendeiro ergueu-se de um salto da cadeira e exclamou indignado:
— Então, senhor doutor, eu pago cinqüenta mil-réis e não tenho nada! Esta é boa! Noutra não caio eu!
E saiu furioso do consultório que merecia da cidade uma romaria semelhante à da milagrosa Lourdes, no doce país de França.
A ORGANIZAÇÃO DO ENTUSIASMO
A curiosa República de que me venho ocupando, é acusada pelos seus filósofos de não ter costumes originais. É um erro de que participam quase todos os seus naturais — erro muito naturalmente explicável, pois mergulhados na sua vida, não possuem pontos de referência para aquilatar da originalidade das usanças especiais de sua terra.
Os estrangeiros, porém, logo as percebem e contam nos seus livros.
Li muitos livros de viagem na Bruzundanga; e, em nenhum deles vi referências a um costume curioso daquele país —"a manifestação".
Chama-se isto ao ato de fazer ressaltar uma dada personalidade com aclamação, o vivório de muitos outros. Esta é a grande manifestação; há também as pequenas que consistem em banquetes, saraus, piqueniques, em honra de um dado sujeito.
Convém fazer observar que tanto uma espécie como a outra visam a publicação de longas notícias nos jornais, de modo a fazer crer ao público que o "manifestado" é mesmo homem de valor(às vezes o é) e merece dos poderes públicos todo o acatamento e toda a proteção. E este o fim oculto da "manifestação", grande ou pequena.
Houve lá um rapaz que, graças aos banquetes que lhe eram oferecidos e cujas notícias saíam em colunas pelos jornais afora, foi de segundo Tenente da Marinha a contra-almirante, em cinco anos, sem nunca ter comandado uma falua.
Um senhor que conheci, fez-se uma celebridade em astronomia, com auxílio dos saraus que lhe eram oferecidos pelos amigos. Ele tinha em casa um óculo de bordo, montado sobre uma tripeça, que, por sua vez, se alcandorava em um mangrulho erguido na sua chácara; lia o Flammarion; e isto tudo com mais uns amigos dedicados a lhe oferecer bailes, por ocasião das suas portentosas descobertas nos céus ignotos, levaram o governo da Bruzundanga a nomeá-lo diretor de um dos Observatórios Astronômicos da República.
Esses casos são de pequenas homenagens levadas ao cabo por amigos cuja amizade e vinhos generosos são bastantes para incutires entusiasmo, por ocasião de tais manifestações.
Mas, para as grandes, para aquelas feitas a políticos, a capitalistas, a embaixadores; para aquelas em que se exige multidão, o entusiasmo não era fácil de obter-se assim do pé pra mão e quando eram realizadas, além desse "defeito" apresentavam alguns outros.
Muitas vezes até os organizadores verificavam que os manifestantes não sabiam bem o nome do grande homem a festejar. Era uma lástima! Uma vergonha! Acontecia em certas ocasiões que um grupo gritava — Viva o doutor Clarindo! — o outro exclamava: — Viva o doutor Carlindo — e um terceiro expectorava — Viva o doutor Arlindo! — quando o verdadeiro nome do doutor era — Gracindo!
Para obviar tais inconvenientes, houve alguém que teve a idéia de "canalizar, de disciplinar" o entusiasmo do povo bruzundanguense, entusiasmo tão necessário às manifestações que lá há constantemente, e tão indispensáveis são ao fabrico de grandes homens que dirijam os destinos da grande e formosa República dos Estados Unidos da Bruzundanga.
Esse alguém, esse homem de gênio, cujo nome infelizmente me escapa agora, delineou — a "Guarda do Entusiasmo".
Os fins a que a organização de semelhante corpo manifestante devia obedecer, foram expostos pelo seu criador, mais ou menos, nas seguintes palavras que, se não são transcritas do seu manifesto, podem ser tomadas como verdadeiras, pois me gabo de ter muito boa memória.
Ei-las:
"As sucessivas e continuadas
festas que Bosomsy (capital da Bruzundanga) tem dado a vários personagens
nacionais e estrangeiros, nestes últimos tempos, sugerem a idéia de se
organizar um corpo de dez mil homens, convenientemente fardados, armados e disciplinados,
encarregados das aclamações, dos vivórios e todas as outras cousas que os
jornais englobam sob o título — 'Uma Entusiástica Recepção'.
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.