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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

De volta de Sepotuba, esquecida ou já não tão dominada pelas suas primeiras concepções, acolheu o primo com grande efusão, admirou-o, apagando toda a ponta de diabolismo que encontrava nele e amaram-se sem saber como, sem determinar o começo, ora parecendo amor antigo, ora um recente capricho.

Encontravam-se há quase um ano naquela casa discreta, graças à complacência de uma velha conhecida, quase pessoa da família de sua mãe, que lhe prestava aquele serviço mais por dedicação do que por interesse de outra ordem.

Edgarda tirou o chapéu, foi se desabotoando com o auxílio do amante, — tudo muito vagarosamente, com preguiça e sem nenhum ardor; Benevenuto disselhe:

— Sabes, Edgarda, que o “velho” vai resignar?

— Não.

— Pois vai, se não resignou já.

— Quem te disse?

— O Inácio Costa... Ele anda sempre informado, vive nos bastidores — ele e o seu primo Salustiano.

— Salustiano? Que tem ele com essas coisas?

Em corpete, colete descansando no toucador, ela sentara-se a uma cadeira, uma perna sobre a outra, e deixara um instante de desabotoar as botinas.

— Que tem?!

— Você é que não adivinhou. Tola — disse ele, beijando-a — ele quer é deslocar teu pai.

— Como?

— É muito simples. Quem dá prestígio a teu pai?

— O partido... Os eleitores...

— Que eleitores! É o governo federal! Que faz Salustiano? Adere a Bentes, desde já; blasona influência; Bentes fica amigo dele; faz-se presidente e transfere o apoio para Salustiano. Admiras que não tenhas visto isto logo!

— Desconfiava, mas...

— Pensavas que Bentes tinha que contar com seu pai?

— Era isso.

— Tinha, não há dúvida; mas não tem. Teria se fosse candidato normal, então trocariam favores; mas Bentes, de qualquer modo, sobe por uma revolução. Dispensa eleição, Congresso, etc. É o que diz o Inácio Costa e é o que se está passando.

A visão daquela insólita queda do pai pareceu-lhe uma desfeita, um insulto; e conquanto ele pudesse prescindir dos proventos do cargo, viu no fato uma humilhação à idade e à respeitabilidade do pai. Tirou uma das botinas e exclamou com raiva:

— É um desaforo!

— Precisa manha, meu amor. O que teu pai deve fazer e os outros também é fingirem grande dedicação a Bentes, fazê-lo prisioneiro, simular admiração pelos seus talentos, e convencê-lo de que é normal a sua ascensão. Mas, para isso devem exagerar, exagerar tudo, o prestígio que têm.

— Como?

— Com telegramas, retratos nos jornais, artigos, manifestações... Queres saber de uma coisa?

— Que é?

— Desde já vocês devem tratar de organizar uma manifestação a teu pai.

— Como?

— Fala ao Lucrécio, ao Inácio Costa...

— Inácio!

— Sim. Ele quer é por o nome em evidência... Fala a eles... Vamos tratar de outra coisa.

A moça já tinha desfeito a sua “toilette” quase inteiramente e o seu colo nascia por entre as maravilhosas ondas rendadas da camisa. A preocupação não a deixava.

— Deita-te.

— Mas...

— Não pensa mais nisto. O fim do mundo ainda não chegou.

Ela quis afastar a obsessão, a teimosa ansiedade; mas voltava-lhe à idéia o “tombo” na influência paterna, enchia-se um momento de indignação sobretudo contra o tal Salustiano, um seu parente! Tomaria o lugar do pai? Como havia de olhá-lo? Já não quisera ridicularizar o marido?

— Ah! É verdade! Lembrou-se ela.

— Que é, meu bem?

— Já fizeste aquilo?

— Ora! Não te esqueças...

— Não se fala em outra coisa. Ainda agora, no bonde de Santa Teresa...



(continua...)

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