Por Lima Barreto (1922)
Meneses ficou muito agradecido e acrescentou:
— Mesmo porque quero que um de vocês consiga meios e modos de falar ao doutor Sarmento Sepúlveda, na Câmara. Tenho uma carta para ele.
O cunhado logo exclamou:
— O quê! É um bicho.
Combinado tudo isto, Meneses instalou-se na casa dos parentes, com a sua mala e os seus ferros de dentista. Levou a carta do Coronel Carvalho ao deputado, que o atendeu muito bem, perguntou-lhe pelas pessoas gradas do lugar onde estivera e deu-lhe outra para o chefe da construção da avenida. No dia seguinte, estava admitido. Ganhou dinheiro, não o guardou, mas, se assim foi, motivo não houve em desperdício de sua parte. O irmão em breve adoecia e morria; o cunhado seguia-se-lhe logo. Custeou o tratamento de ambos; e, quando foi dispensado da comissão da avenida, pouco após a morte de ambos, pouco ou nada tinha. A irmã ficara com uma pequena pensão mensal da Caixa dos Remadores, cerca de trinta milréis, e um filho; e ele, com seus ferros de dentista. É verdade que fizera uma pequena biblioteca de engenharia mecânica: As Grandes Invenções, de Luís Figuier; As Maravilhas da Ciência, de Tirrandier; manuais de toda a sorte de ofícios e recortes de jornais que tratavam de coisas científicas ou parecidas, colados em cadernos encadernados. Dessa biblioteca, nunca se separou; e, conquanto já bebesse, com o tempo, os desgostos e a miséria atraíram-no mais para o álcool, e o furor de beber o tomou inteiramente. A toda hora, naquele casebre dos subúrbios, onde morava com a irmã e o palerma do sobrinho, ele esperava, adivinhava, construía uma catástrofe que lhe devia cair sobre os ombros; e essa visão de uma próxima catástrofe na sua vida entibiava-lhe o ânimo, descoroçoava-o e pedia-lhe para afastar — a bebida. Na rua, se só, era a mesma coisa. Só a tinha longe dos olhos, quando de súcia com outros.
Contudo, apesar das duras necessidades que curtia, com a irmã e o filho desta, jamais ato algum de sua vida incidira na censura de sua consciência. O pouco dinheiro que os ferros lhe davam ou os amigos, era empregado no sustento deles, pois a casa era paga com a pensão de Etelvina, a irmã.
Cassi, para vencê-lo, para ladeá-lo, tinha imaginado o plano de, aos poucos, pô-lo a seu dispor, prendê-lo de pés e mãos, como se diz, sem ele perceber.
Sabendo onde encontrá-lo à noite, nessa mesma do dia em que soube, procurou-o, Meneses estava triste a um canto, lendo um jornal, com um cálice vazio ao lado.
O homem das modinhas chegou-se e, sem dizer palavra, foi se abancando:
— Boa noite, doutor!
— Boa noite, "Seu" Cassi — fez Meneses, erguendo a cabeça do periódico.
— Que há de novo, por aí? Trabalha-se muito?
— Alguma coisa. Agora, as coisas me correm melhor. O Joaquim dos Anjos deu-me os dentes da filha a tratar, e ele, embora pouco, sempre me paga pontualmente. É um alívio!
— O doutor é um sonhador. Tem sido explorado...
— Nem tanto. Quando fiz aquele trabalho para uma de suas irmãs, fui muito bem pago. A minha dificuldade é não ser formado; demais, não tenho roupas... Às vezes, "Seu" Cassi, para arranjar esses sapatos de duraque que uso, por não poder usar outros, suo sangue e faço das tripas coração...
— Paciência, doutor. Tome alguma coisa — fez Cassi amável.
Meneses aceitou e disse amargamente:
— Estou com setenta anos e não sei o que fiz na vida.
Cassi regozijava-se, intimamente pensando: o homem está cheio de dificuldades.
— Não desanime. O Capitão Sebastião, aquele da Prefeitura, há dias me disse que ia precisar de um dentista modesto para consertar os dentes de um filho, que, na "muda", deixou acavalar. É pouca coisa, mas, talvez, daí...
— Aceito tudo...
— Outra coisa, doutor Meneses.
— Que há?
— O senhor se dá muito com o Leonardo Flores, o poeta?
— Muito. Por quê?
— É que eu queria uns versos...
Meneses não escondeu o espanto, que Cassi percebeu, e, sem dissimular, procurou explicar-se melhor:
— É coisa séria. Não há compromisso nenhum para os senhores... Eu daria alguma coisa até!...
— É que o senhor não sabe como o Flores é orgulhoso. Dentro daquela sujeira toda, esfarrapado, alagado de cachaça, ele é um Deus; e não lhe toque em coisas de poesia, porque senão...
— Sei bem; mas sei também que o senhor tem grande influência sobre ele. Veja se me arranja? Olhe, doutor, não é para afrontar; tem aqui dez mil-réis para as primeiras despesas. Cinco são para o senhor e cinco para ele.
— Não é preciso — disse Meneses, já um tanto convertido.
A sua miséria lhe falava. Não havia quebra de honestidade, tanto mais que não se tratava de injúrias e insultos a ninguém.
— Não, doutor; leve, leve! Tudo deve ser pago. Não é preciso grande coisa; bastam uns versos amorosos, mas delicados e finos, morais — está ouvindo, doutor?
(continua...)
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.