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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Exponha o que deseja! ordenou secamente o rapaz, depois deste exame instantâneo.

- O senhor escusa de negar... principiou o Almeida.

- Eu nunca nego o que faço!... interrompeu Teobaldo..

- Escusa, porque eu sei que ela está aqui.

- Ela quem?

- A Ernestina.

- Está.

- Pois era disso que eu precisava me capacitar! Não me suponha tão tolo, que não tivesse há mais tempo desconfiado da marosca; quis, porém, ter uma certeza e agora posso proceder à vontade, sem me doer a consciência!

- Explique-se.

- Pois não: uma vez que ela o prefere a mim, cedo-lha!

- Hein? Como é lá isso?

- Cedo-lha, repito!

- Cede-ma?!

- Sim. Pode tomar conta dela. É sua!

E, dito Isto, o Almeida soprou com força, como quem se vê livre de uma carga pesada, e abicou para a saída.

Teobaldo deteve-o com um gesto.

- Espere, disse-lhe. Antes de tomar conta de um fardo, que eu estava longe de esperar, quero saber ao qual é o seu conteúdo e a sua procedência!

- Ela que lhe explique tudo!... respondeu o velhote.

- Não; contradisse o outro; não quero trocar com ela uma palavra!... Ao senhor compete por tudo em pratos limpos. Em primeiro lugar, desejo saber ao certo que diabo vem a ser o senhor para D. Ernestina.

- Pois então o senhor não sabe?

- Se soubesse não perguntaria.

- Com franqueza?

- Não falo de outro modo.

- Pois então, ouça.

Teobaldo ofereceu uma cadeira ao Almeida e assentou-se em outra.

- Vamos lá disse.

- Haverá coisa de oito anos.. . casei-me, principiou aquele.

- Muito bem.

- Casei-me, mas não fui feliz...

- Sua mulher traiu-o?

- Não; tinha mau gênio. Era uma víbora!

- Muito bem.

- Suportei-a durante três anos; empreguei todos os meios para quebrar-lhe a fúria.

- Quebrou?

- Foi tudo debalde. A megera ficava cada vez pior. Resolvi largar de mão o negócio! - Abandonou-a?

- Justamente; mas...

- Que idade tinha sua mulher?

- Cinqüenta anos.

- Ah!

- E o senhor casou por amor?

- Sim, por amor... dos seus interesses.

- Ah! era rica..

- Nem por isso...

- Quanto possuía?

- Cinqüenta contos.

- Um conto por ano. Adiante!

- Mas bem, como eu lhe dizia...

- Como me dizia...

- Resolvi separar-me dela e, foi dito e feito, zás!

- Separou-se!

- Logo.

- Muito bem.

- Foi então que uma noite, voltando para a minha nova residência, encontrei, encostada à porta da rua, uma rapariga...

- Era D. Ernestina...

- Não; era uma mulatinha que me disse haver fugido de casa, porque o senhor estava muito bêbado e queria dar-lhe cabo da pele, depois de ter feito o mesmo à mulher. Perguntei onde ficava a tal casa, e como era perto, dei um pulo até lá. A mulatinha entrou adiante com toda a cautela e voltou pouco depois,. declarando que a peste do patrão havia já pegado no sono. "E o cadáver?" perguntei eu. "Deve estar na sala", respondeu a mulatinha. Abrimos a porta, e vi então um corpo de mulher estendido no chão. Esta é que era D. Ernestina.

- Estava morta?

- Não, não estava morta, infelizmente, mas estava muito moída de bordoada! E, ainda bem não me tinha visto entrar na sala, começou a chorar com gana e disse-me então que o borracho do marido, além de que lhe não dava de comer, punha-a naquele estado. "Tem fome?" perguntei-lhe eu. "Muita" respondeu-me ela com a voz fraca. "Quer vir cear comigo?" "Onde?" "Em minha casa". "E meu marido?..." "Mande-o plantar batatas!" Ela aceitou; pôs um xale sobre a cabeça, chamou a mulatinha e saímos todos três.

Quando o Almeida chegou a esse ponto da sua narração, ouviram-se fortes soluços dentro da alcova de Teobaldo. O Almeida sacudiu os ombros e prosseguiu:

- Desde essa noite ela ao meu lado substituiu minha mulher. Despedi a mulatinha, que era alugada, montei esta casa e...

- E o marido?

- Morreu pouco depois, no hospital.

- Não deixou filhos?

- Creio que não; pelo menos foi o que ela me disse.

- Bem! fez Teobaldo, erguendo-se. De sorte que tudo isso que aí está no primeiro andar foi comprado pelo senhor?

- Tudo, e a casa também.

- Logo, tudo lhe pertence?

- Não, porque pertence àquela ingrata...

- E está sempre disposto a separar-se dela?...

- De certo.

- E quanto ela lhe custava em despesa por mês?

- Para que deseja saber?

- Para medir a altura do meu sacrifício.

- Dava-lhe oitenta mil réis por mês em dinheiro e comprava-lhe muitas coisas: roupa, calçado, chapéus, tudo que ela precisava.

- Bem. Pode ir quando quiser.

(continua...)

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