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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Assim! fala­me deste modo, meu Gaspar! dá a este coração amargurado uma idéia consoladora! Ah! sabes perfeitamente que nunca fui rancoroso e jamais me comprazí com o sofrimento alheio; mas tanto e tanto fel me verteram cá dentro, tanta e tanta lama me atiraram, que afinal todo eu me converti em lama e fel! Sinto­me mau! Eu, que fazia dantes consistir a minha felicidade no comprimento do dever e toda a minha aspiração em ser bom e leal, eu sou hoje cruel e vingativo! Sim! Preciso saber desde já que serás inexorável na vingança! Que calcarás debaixo dos pés o meu verdugo! Prometes, não é verdade, meu filho? Não é verdade, que serás ainda mais cruel do que eu? Fala!

— Sim! sim! meu pai! Juro­lhe por minha honra!

E os dois abraçaram­se comovidos.

No resto da sala corria um silêncio que já era de morte.

De repente, porém, ouviu­se uma voz, fresca sonora, gritar da porta:

— Gaspar! Ó Gaspar! onde diabo estás tu?!

Aquela voz alegre despedaçou escandalosamente o silêncoi compacto da sala. Gaspar levantou­se de um silêncio e precipitou­se nos braços de Gabriel, que voltava dos seus estudos acadêmicos.

— Meu filho! dizia ele chorando e rindo; minha vida!

E beijava­o na testa e nas faces.

— Como estás forte! Como estás belo!

E voltando­se para o coronel:

— Olhe! olhe! meu pai! veja o Gabriel! Entrou aqui como um raio de sol! Já não há tristezas! exclamava o médico. Já não há tristezas! fugiram as sombras!

E abraçava o enteado.

— Como tu me dás vida! Como eu te amo, meu filho!

E Gaspar, com efeito, parecia outro; estava agora reanimado e feliz.

O coronel abraçou o filho de Violante.

— Voltaste, afinal, meu pequeno! disse ele procurando sorrir. Fizeste bem! cá estávamos nós outros, como dois tolos, à espera da morte, e afinal chegas tu, que és a vida, a alegria, a mocidade! Com mil cartuchos! Não há como ter vinte anos!

— Mas, que escuridão, meu Deus! disse Gabriel olhando em torno de si. Como se pode viver em uma casa fechada deste modo?!

E escancarou uma janela que dava para a rua.

Uma baforada quente do ruído de fora invadiu com a luz do meio­dia a sala do coronel, e despertou­a do seu fundo entorpecimento.

— Que diabo faz este piano paralítico, que não me dá um ar de sua graça? exclamou o rapaz estacando defronte do sombrio instrumento. Ah! supunhas que não te havia de pôr mais os dedos? Ora, espera, meu velho entrevado, que já te vou escovar a alma!

E, sem ouvir o coronel, que lhe gritava da cama, Gabriel sacou a capa do velho piano e abriu­o com estrondo.

— Olha que me afliges com isso, Gabriel! dizia o pobre veterano. Depois da minha Anita, ninguém mais tocou nessas teclas! Não me faças chorar!...

Mas já ninguém o podia ouvir, porque um doido turbilhão de notas enchia a sala com a sonoridade retumbante dos seu ecos.

Era um infernal! bailado de Offenbach. As notas palpitavam vertiginosamente no ar adormecido daquela sala, como um bando de máscaras endemoninhadas invadindo uma sacristia.

E tudo parecia ir a pouco e pouco revivescendo com o delírio da música. Os graves trastes, cheios de pó e alquebrados de abandono, pareciam resistir ao desejo de atiraram­se aos pinchos do cancã.

Os retratos a óleo, o venerando relógio de armário, as estantes, os tremós, o canapé, tudo parecia acordar à mágica fascinação do rei da gargalhada musical. Gaspar esfregava as mãos.

— É a mãe tal qual! A mesma vivacidade! a mesma voz a mesma formosura!

E limpava os olhos, apressado, para os não ocupar com outra cousa que não fosse Gabriel.

— Como é vivo! Como é belo! exclamava ele, com a fisionomia iluminada de amor paterno.

Não obstante, o velho coronel chorava silenciosamente a um canto. Só ele não participou da alegria geral; ao contrário, aquela música, petulante e sarcástica, doía­lhe por dentro como um insulto à sua tristeza.

A casa palpitava e estremecia na onda vertiginosa das vibrações, quando de súbito assomou à porta o vulto magro do Marmelada, o chapéu para a nuca e as botas encalavradas, a dançar o som do palpitante bailado.

O pobre homem tinha, inteiramente fora de seus hábitos e talvez em conseqüência da fome, apanhado uma formidável bebedeira; e, no entanto, não podia ser melhor o impulso que o levava ali; ia prestar um grande serviço, fazer uma revelação importantíssima para o coronel.

Depois daquele delírio em que este o expulsara de casa, o infeliz ainda mais se afundara no seu desânimo moral e físico. O sogro mandara chamá­lo por várias vezes, mas Alfredo resmungava que lá não poria os pés!

— Haviam­no enxotado, como se enxota um cão; ele porém, é que não voltaria como os cães! Sabia que era um pobre diabo, mas tinha consciência de não fazer mal a ninguém, nem cometer baixezas, para que o tratassem daquele modo!

E o caso é que, apesar de toda a sua miséria, nunca mais voltaria com efeito, se não fosse o seguinte:

(continua...)

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