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#Romances#Literatura Brasileira

Rozaura, a enjeitada

Por Bernardo Guimarães (1883)

Foi nesta occasiào que Nha-Tuca achando— se inteiramente exhausta de recursos, vio-se na dura necessidade de vender Rozaura, que então contava dez annos, e era a unica cria que lhe restava de suas escravas. Posto que vivesse no meio daquella escola do vicio e da abjecção, Rozaura, graças á sua indole privilegiada, e tambem ao cuidado que Nha-Tuca, por excepção de regra, tinha tido de esquivarlhe aos olhos as sccnas de devassidão, que se davüo em sua casa, havia conservado até alli pura e intacta a innocencia de sua alma. Si era uma fada pela formosura do rosto e pelo airoso porte de seu corpo esbelto, era um anjo pela candura e pureza do coração.

Foi um assignalado favor que o céo fez á pobre menina, permittindo que ainda em verdes annos fosse arrancada ao ambiente infecto daquelle immundo lupanar.

O preço de Rozaura porém não tendo applicação alguma lucrativa, bem depressa se exhaurio, e a miseria veio bater á porta da desgraçada velha, que jâ não tinha por companheira, sinào uma escrava, tão edosa e invalida como ella. Já Nha-Tuca se dispunha a vender o predio em que morava, para ter de que subsistir, quando para cumulo de males, em uma bella noite, foi elle devorado por um incendio, do qual a custo e como por milagre

ella e sua companheira puderão escapar com a roupa do corpo. No outro dia as duas miseras velhas vagavão pela estrada, mendigando pelo amor de Deos um boccado de alimento, sem um telheiro em que se abrigassem, e bem poucos se compadecião dellas.

— Foi bem feito. murmurava o povo desalmado; é castigo de Deus. Nem outra sorte merecia semelhante feiticeira.

Portanto a infeliz, condemnada a tragar até as fezes a taça do abandono e da miseria, era por quasi toda parte mal acolhida, e atê repellida e insultada. O povo ou porque tem por costume fazer a vista grossa sobre os defeitos e nodoas que enxovalhão a vida de qualquer, emquanto este se acha em condições de riqueza e prosperidade, ou porque só depois que Nha-Tuca cahio em disgraça, começassem a divulgar-se as torpezas e maleficios por ella practicados, o povo não teve della a menor commiseração. De feito, erão execraveis as atrocidades que se lhe attribuião, e forão as proprias escravas que, vendo o descalabro dos bens da senhora, e o desconceito em que ia cahindo, se encarregárão de propalal-as. Por bocca dessas des-

graçadas, que a miseria e a crapula tornavão cada vez mais abjectas, toda a gente daquelles

arredores ficou sabendo não só as façanhas, que temos relatado, como tambem que fôra Nha-Tuca quem abreviára os dias de seu irmão para empolgar-lhe a herança.

O francez que tinha taverna á beira da estrada foi o unico que se compadeceo della, permictindo-lhe morar no miseravel ranchinho, em que a encontrámos.

Ahi definhava ella ha dous annos em companha da preta velha, de que já fallámos.

Era esta que de quando em quando sahia a esmolar pela cidade para si e para sua companheira, porque si sahisse a propria Nha-Tuca, bem mingoada seria a collecta. Essa mesma pobre preta, que era seu unico arrimo, havia morrido subitamente dous dias antes, deixando sua senhora entrevada sobre seu misero gra bata e no estado de indigencia e desamparo em que Conrado veio encontrai-a.

CAPITULO XIV

A confissão

No quarto da moribunda havia dous tambocetes, um collocado junto a cabeceira, outroaos pés do pobre giráo. Havia tambem defronte do leito uma mesa pequena e tosca, sobre a qual estava collocado um crucifixo de madeira entre duas velas accesas; assim como tambem um tinteiro, penna e papel. À enferma, graças aos cuidados do francez, que conforme as recommendações de Conrado, além de ter mandado arejar o aposento e mudar a roupa da cama, tinha-lhe enviado um caldo e um calix de vinho, achava-se mais reanimada. Estava ella meio sentada, e encostada a alguns travesseiros. Conrado fez Frei João sentar-se ã cabeceira, e elle mesmo collocou-se aos pés da cama da enferma. O francez e as ou— tras duas testemunhas, por não haver mais assentos, ficárão em pé defronte do leito.

— Senhora Dona Gertrudes, — disse Conrado, com um accento de voz pausado e brando, de modo que tranquillisasse a enferma, prometti trazer-lhe um confessor : venho cumprir a minha promessa. Ahi está em sua presença o Sr Padre Frei João de Sancta Clara, digno e virtuoso sacerdote, que está prompto a ouvil-a de confissão, e absolvel-a de seus peccados.

A velha voltou a custo o rosto para o padre, depois, levando lentamente sobre o coração a dextra mirrada em Signal de gratidão e reverencia so saudou com uma leve inclinação de cabeça.

— Tenha piedade de mim, senhor padre, murmurou com voz secca e alquebrada.

É à misericordia divina, e não a minha, que a senhora deve implorar, respondeo brandamente Frei Joao, — É Deus, e não eu, que tem de julgal-a.

— Sim é elle bem sei ; mas minhas culpas são tantas e tão enormes...

(continua...)

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