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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Dentro de pouco mais de um mês, começou Maurícia a notar a frieza do marido, acompanhada de circunstância que parecia terem com ela a maior ligação. A filha de Januária. que quase nunca passara além da meia-água, atravessava agora o restante do pátio do engenho várias vezes, durante a semana e passava pela porta da casa, onde ela morava. Um dia, chegou a perguntar a um moleque do serviço doméstico, se Bezerra estava em casa. Mais de uma vez, saindo mais cedo do que costumava para ir tomar a lição de Alice, não encontrou Maurícia na casagrande o marido, que para aí lhe dissera ir. Maurícia não deu mostras e ciúme, e não o sentia. Não se casara como Bezerra por amor, mas por fazer as vontades dos pais. Tinha, então, Bezerra catorze anos menos; dispunha de meios que lhe permitiam aparecer com mais decência na sociedade; não trazia consigo um passado odioso. Mas, não obstante reunir semelhantes condições favoráveis, não lhe havia inspirado afeto especial; tinha para ele olhos simplesmente benévolos, palavras corteses e respeitosas. Agora, as circunstâncias o favoreciam ainda menos. Estava pobre, alquebrado e carregava ás costas um saco de mazelas. Procurava de novo a sua companhia para ter segura a vida que era sumamente custosa de manter. Quase dependia dela. Perdera grandes partes da antiga arrogância e cultivava a conveniência. Era um homem de corpo aberto. Mas não obstante, mostrava-se magoada, e uma vez chegou a revelar-lhe a cena que um mês antes o tinha visto representar com a mestiça entre a meia-água e a porteira. Bezerra deu pouca importância, ou nenhuma, aos ressentimentos da mulher, e não alterou o seu hábito de fazer ausência de noite e de dia.

Por esse tempo, adoecendo a escrava que Albuquerque encarregara do serviço em casa de Bezerra, veio preencher-lhe a falta uma crioula nova, por nome de Brígida, que D. Carolina tinha em grande estimação. Com esta rapariga, entraram na casa novos desgostos para Maurícia. Bezerra dirigia-lhe gracejos a furto, e lançava-lhe olhares de ternura ignóbil. Um tarde, em que Maurícia voltara mais cedo do engenho, surpreendeu o marido em prática familiar com a cativa. Deu-se por ofendida, e as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. Teve ímpetos de ir imediatamente contar à D. Carolina o que vira; mas a vergonha de revelar a vileza reteve-a silenciosa. Ela, porém, não pode acabar consigo que não desse grande demonstração da sua profunda mágoa àquele que era desta causador.

— Senhor - disse - daquela porta para fora, poderemos continuar a ser dois consortes que, depois de várias e cruéis vicissitudes, convieram em encurtar a distância que os trazia afastados, e emendar o roto laço do combatido afeto, mas, das portas adentro, espero que estejamos de hoje em diante tão distantes como se entre nós se interpusessem, como já se interpuseram, dezenas de léguas de oceano.

Bezerra teve para esse assomo de justo e elevado agravo risos mofadores. Saiu e voltou tarde. A porta da alcova estava trancada por dentro. Bezerra ficou alguns momentos em pé junto dessa porta, que o ameaçava com ares de sentença de desquite.

— Eu podia por no chão esta porta e entrar; mas era dar muita importância ao que merece pouca.

Encaminhou-se para o gabinete fronteiro, onde havia uma cama de solteiro, algumas cadeiras, uma mesa e um toucador.

Ao lado da cama, viu os baús que mandara conduzir do Recife no dia da sua mudança para o engenho. Dos ganchos de um cabide de faia, pendiam os seus paletós e calças. Aos pés da cama, estava o seu par de chinelas.

— É um mandado de despejo. Por tão pouco!...

Maurícia praticara este ato de energia não tanto por ciúme, como por ferida em seus melindres; e estava no ânimo de não retroceder, ainda diante das mais graves conseqüências.

— Depois disto — dissera ela - só se deve seguir ou a completa emenda dele, ou a saída de um de nós dois.

(continua...)

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