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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

Bem se lembrara o infeliz pai de dar denúncia do fato às autoridades, implorando a proteção das leis em favor de sua filha para que não fosse vitima das violências e sevícias de seu dissoluto e brutal senhor. Mas todos a quem consultava respondiam-lhe a uma voz:

— Não se meta em tal; é tempo perdido. As autoridades nada têm que ver com o que se passa no interior da casa dos ricos. Não caia nessa; muito feliz será, se somente tiver de pagar as custas, e não lhe arrumarem por cima algum processo, com que tenha de ir dar com os costados na cadeia. — Onde se viu o pobre ter razão contra o rico, o fraco contra o forte?...

Miguel entretinha relações ocultas com alguns dos antigos escravos da fazenda de Leôncio, os quais, lembrando-se ainda com saudades do tempo de sua boa administração, conservavam-lhe o mesmo respeito e afeição, e por meio deles tinha exata informação do que se passava na fazenda. Sabendo dos cruéis apuros a que sua filha se achava reduzida depois da morte do comendador, não hesitou mais um instante, e tratou de tomar todas as providências e medidas de segurança para roubar a filha, e pô-la fora do alcance de seu bárbaro senhor. Na mesma madrugada, que seguiu-se à tarde, em que a raptou, fazia-se de vela com Isaura para as províncias do Norte em um navio negreiro, de que era capitão um português, antigo e dedicado amigo seu. Este chegando às alturas de Pernambuco, como daí tinha de singrar para a costa da África, largou-os no Recife, prometendo-lhes que dentro em três ou quatro meses estaria de volta e pronto a conduzi-los para onde quisessem.

Miguel que em sua profissão de jardineiro ou de feitor havia passado a vida desde a infância dentro de um horizonte acanhado e em círculo mui limitado de relações, tinha pouco conhecimento e nenhuma experiência do mundo, e portanto não podia calcular todas as conseqüências da difícil posição em que ia colocar a si e a sua filha. Durante os longos anos que esteve feitorando a fazenda do comendador e de outros, não se dera senão uma ou outra fuga insignificante de escravos, por alguns dias e para alguma fazenda vizinha, e, portanto, não é para admirar que ele quase completamente ignorasse a amplitude dos direitos, que tem um senhor sobre o escravo, e os infinitos meios e recursos de que pode lançar mão para capturá-los em caso de fuga. Entendeu, pois, que em Pernambuco poderia viver com sua filha em plena seguridade, ao menos por três ou quatro meses, uma vez que se afastassem da sociedade o mais que pudessem, e procurassem esconder sua vida na mais completa obscuridade.

Isaura também, se bem que tivesse o espírito mais atilado e esclarecido, longe do objeto principal de seu terror e aversão, não deixava de sentir-se tranqüila, e até certo ponto descuidosa dos perigos a que vivia exposta. Mas essa tal ou qual tranquilidade só durou até o dia em que pela primeira vez viu Álvaro. Amou-o com esse amor exaltado das almas elevadas, que amam pela primeira e única vez, e esse amor, como bem se compreende, veio tornar ainda mais crítica e angustiosa a sua já tão precária e mísera situação.

Álvaro tinha na fisionomia, nas maneiras, na voz e no gesto, um não sei quê de nobre, de amável e profundamente simpático, que avassalava todos os corações. O que não seria ele para aquela que única até ali lhe soubera conquistar o amor? Isaura não pôde resistir a tão prestigiosa sedução; amou-o com o ardor e entusiasmo de um coração virgem; e com a imprevidência e cegueira de uma alma de artista, embora não visse nesse amor mais do que uma nova fonte de lágrimas e torturas para seu coração.

Medindo o abismo que a separava de Álvaro, bem sabia que de nenhuma esperança podia alimentar-se aquela paixão funesta, que deveria ficar para sempre sepultada no íntimo do coração, como um cancro a devorá-lo eternamente.

No seu cálice de amarguras, já quase a transbordar, tinha de receber da mão do destino mais aquele travo cruel, que lhe devia queimar os lábios e envenenar-lhe a existência.

Já bastante lhe pesava andar enganando a sociedade a respeito de sua verdadeira condição; alma sincera e escrupulosa, envergonhava-se consigo mesma de impor às poucas pessoas que com ela tratavam de perto, um respeito e consideração a que nenhum direito podia ter. Mas considerando que de tal disfarce nenhum grande mal podia resultar à sociedade, conformava-se com sua sorte. Deveria, porém, ela, ou poderia sem inconveniente manter o seu amante na mesma ilusão? Com seu silêncio, conservando-o na ignorância de sua condição de escrava, deveria deixar alimentar-se, crescer profunda e enérgica paixão, que o moço por ela concebera?... não seria isto um vil embuste, uma indignidade, uma traição infame? não teria ele o direito, ao saber da verdade, de acabrunhá-la de amargas exprobrações, de desprezá-la, de calcá-la aos pés, de tratá-la enfim como escrava abjeta e vil, que ficaria sendo?

(continua...)

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