Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
– Sonhei. Por que hei de mentir ou esconder um sonho inocente? Foi um sonho deleitoso, um sonho de moça. Sonhei que um gênio benigno me aparecia risonho e afetuoso. Era um gênio, mas tinha o rosto do vice-rei. Não tinha voz, falava-me porém com os olhos. Era apenas uma sombra, mas não me assustava, nem eu lhe fugia. A um movimento de sua mão branca e transparente tu apareceste, e ele nos ligou com um laço de flores. Minha avó, que ali estava, chorando, abençoava ao gênio e a nós. Não sentíamos mais nem pobreza nem receios do futuro. O gênio levou-nos para fora, e tirando dos ombros uma túnica cor de angélica que trazia, estendeu-a sobre a lagoa do Boqueirão, que, de súbito, se transformou em um lindíssimo jardim. Depois, o gênio... a sombra foi-se esvaindo... esvaindo, até desaparecer de todo; e felizes, contentes, nós corremos como duas crianças travessas pelo jardim. Depois, ah! Vicente! Depois, eu desatei a chorar, porque nesse imenso jardim procurei debalde e não encontrei este coqueiro, a cuja sombra, um dia, pela primeira vez, de joelhos aos pés de minha avó, tu lhe disseste o que eu já sabia... que me amavas. O sonho parou aí, porque... eu acordei, chorando.
O que sentiu Luís de Vasconcelos, ouvindo a narração daquele sonho, ninguém pôde saber. Apenas mestre Valentim supôs que o vice-rei por mais de uma vez enxugara as lágrimas.
– Estás ouvindo, Vicente? – disse a velha comovida e soluçando.
– Estou – respondeu o mancebo. E juro que acredito tanto nainocência e na pureza de Susana como na salvação da minha alma. Mas um sonho é uma ilusão que nada pode na vida, e a realidade que receio me espanta e me atormenta.
– Confia em mim, meu primo.
– E se amanhã, ou em breves dias, o vice-rei, abusando doseu poder e da sua influência, ousasse perturbar a paz, a serenidade do teu coração e tentasse...
A moça não o deixou acabar. Ergueu-se e falou. E à medida que falava, a velha, que também se erguera, veio se chegando para o coqueiro.
Susana respondia a Vicente:
– Eu diria ao vice-rei sem hesitar nem tremer: senhor, soupura e feliz; tenho um noivo a quem amo, um noivo que minha avó abençoa, tenho um amor que um padre que era meu tio e tio do meu amado abençoou no momento de morrer. É um amor sagrado diante de Deus, como a minha pureza é uma flor do céu. Esta pureza e este amor não hão de ceder ao capricho de um vice-rei. Contava com a vossa generosidade, faltou-me ela; agora conto com a minha virtude, conto com Deus, contarei, enfim, com a morte.
– E eu lhe diria – exclamou a velha, cujos cabelos soltos alvejavam ao clarão da lua: Sr. vice-rei, tive uma filha bela como Susana; há vinte anos um fidalgo rico e poderoso apaixonou-se por ela, e não podendo desposar a filha de uma pobre mulher sem nome, seduziu-a: ao capricho do sedutor seguiu o seu desprezo pela vítima, e a miséria e o opróbrio desta..., desse crime proveio uma filha, é Suzana, que custou a vida a sua mãe. Eis uma velha história que se parece com a que quereis principiar. Não entreis, pois, em minha casa, porque nela já há de sobra vergonha, desonra, desgraça e morte. Não entreis, porque tereis de tremer diante da maldição de uma velha que tem chorado vinte anos!
– Minha avó, sossegue! – exclamou Vicente.
– Mau! – disse Susana. Tu fizeste hoje chorar nossa boa avó, efoste injusto com o vice-rei, que é nobre e generoso.
– Perdoai-me ambas! – balbuciou o mancebo.
– Sim... sim – disse a velha. Mas por hoje basta. Amanhã, Vi-cente, falarás a frei Veloso, e, empregado ou não, casar-te-ás com Susana antes do fim do ano.
Vicente beijou a mão de sua avó com ardor e comoção. Susana correu adiante e entrou para casa sem despedir-se do noivo, que, momentos depois, partiu apressado em direitura à rua da Ajuda, onde morava.
Luís de Vasconcelos e mestre Valentim saíram da moita de arbustos e caminharam em silêncio. O artista não ousava dirigir uma única palavra ao vice-rei.
Ao chegarem à entrada do palácio, Luís de Vasconcelos voltou-se e disse:
– Amanhã ao meio-dia temos que conversar, mestre Valentim.
O resto da noite foi de meditação e talvez de luta para o vice-rei, que não dormiu e levantou-se cedo no dia seguinte. Os olhos um pouco injetados e grandes olheiras roxas anunciavam em Luís de Vasconcelos longas horas de vigília e de sofrimento; seu rosto, porém, mostrava-se animado e sereno.
Às 10 horas da manhã sentou-se o vice-rei na sua cadeira da sala das audiências, onde recebeu logo depois um engenheiro e diversos empregados.
Às onze horas entrou na sala Vicente Peres, que o vice-rei
mandara chamar! O mancebo vinha pálido e trêmulo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.