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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

A incognita deixou ouvir um grito de sor-presa e de susto, e levantou-se para fugir ; mas, tomada de subito tremor nervoso, deu apenas um passo e sentou-se outra vez, dizendo :

— Meu Deus !...

O estudante aproveitou o ensejo, e de joelhos com estava, tremulo também, inspirado porém pela paixão fez mil protestos de ternura e mil juramentos de amor.

Pouco a pouco a moça foi serenando : no ardente discurso que ouvia, o respeito dominava sempre o impeto do amor : reconheceu bem depressa que tinha a seus pés um escravo e não um seductor, e banindo de sua alma o receio, fitou no mancebo um olhar cheio de angelica doçura, e disse:

— Porque vem perturbar a paz do meu retiro ?... onde e como pude eu inspirar-lhe esse amor ?... e esse amor, se um dia eu o tivesse também, que me daria elle ?

Luciano quiz fallar.

— É inutil, continuou a incógnita com voz segura, adivinho tudo quanto quereria dizer-me. Ama-me, não é assim ?... porém como ? vio-me por acaso algumas vezes n'esta solidão, agradoulhe o meu rosto, achou-me bella talvez, impressionou-o o mysterio da minha vida, e vem cahir a meus pés. Que amor é esse ?... sabe se por ventura sou digna d'elle ?... se victima de um erro ou de um remorso vim aqui esconder o meu opprobrio ? .. sabe se eu mereço reprovação ou piedade ?...

— A pureza brilha no seu angelico semblante : não me enganei, não me engano.

— E quem sou eu ?

— É um anjo !

_ Também ha anjos decahidos, Sr. Luciano, disse a moça sorrindo-se.

— Sabe o meu nome... conhece-me... balbuciou o estudante.

__ Oh ! sim... conheço-o, e sei um pouco a historia de sua vida. Sei que desde tres dias procura descortinar o segredo do meu nascimento, do meu passado, e do meu futuro.

— E quem lh'o disse ?... perguntou Luciano sorprendido.

— Dionysia, respondeu a moça sorrindo outra vez.

O estudante levantou-se irritado, ouvindo o nome da sua pretendida noiva.

— Escute, continuou a incógnita : pronunciei este nome para lembrar-lhe um dever que tem esquecido.

— Nunca !

— Mas porque ?...

— Até ha tres dias porque não tolerava a idéa de casar-me com essa senhora, depois de tres dias porque a amo, e nenhuma outra mulher lera o meu nome.

— E seus pais ?...

— Meus pais hão de adoral-a desde o primeiro instante em que chegarem a vêl-a.

— E meus pais ?

— Oh ! diga-me quem são, e eu correrei a fallar-lhes... quem são ?...

— Não sei, balbuciou a moça abaixando vergonhosa a cabeça.

— Pois bem: terá por seus pais os meus e por defensor, amigo, escravo o mais apaixonado dos esposos.

— Não ; a minha vida está presa a um mysterio que eu mesma não comprehendo : eu nem devo, nem posso animar o seu amor.

— Entendo tudo, disse o estudante exaltandose ; Dionysia adivinhou o meu amor pela senhora, e tratou de perder-me no seu conceito.

— Eu menti ainda ha pouco, senhor, tornou a moça : não conheço a sua noiva... nada lhe ouvi... vivo longe de todos, e de todos me escondo.

— Como poude então saber que se projectára esse casamento que me repugna ?

— Fallou-me disso a mulher do lavrador em cuja casa me asylárão.

— E com que fim ?... a que proposito ?...

A moça descansou uma de suas mãos sobre o hombro de Luciano, que estremeceu a esse doce contacto : depois encarou o mancebo com um olhar mágico e suavissimo, sorrio com a mais encantadora graça e disse:

— Que lhe importa ?...

— Meu Deos !... exclamou Luciano cahindo outra vez de joelhos.

Ajoven recuou um passo, como se arrependida ficasse da acção que praticara e do tom em que fallára : corou, parecendo sentir que deixara insensivelmente escapar dos labios uma phrase que começava a atraiçoar um segredo do coração; mas logo depois flingindo-se medrosa, disse :

— Sinto rumor... alguém se approxima... Luciano ergueu-se, pensando que era Bap-tista que o vinha perturbar no momento em que o fortuna lhe concedia um sorriso ainda duvidoso... voltou-se para o lado do monte e ouvio immediatamente o leve ruido dos passos ligeiros da incognita, que fugia correndo.

— Oh ! por compaixão... disse, elevando a voz e estendendo os braços para a fugitiva.

Ella parou : volveu o rosto para Luciano, seus olhos brilharão com divino fogo, seus labios sorrirão de novo com encanto e doçura e murmurarão emfim :

— Até amanhã.

V.

N'aquella simples, mas animadora phrase « até amanhã! » e no olhar e no sorriso que a acompanharão, havia um futuro immenso de esperanças e de amor.

Luciano passou o dia a sonhar mil venturas: abella incognita fizera-lhe adivinhar o paraiso, pronunciando duas palavras.

Ao meio-dia um pobre lavrador da vizinhança viera pedir ao estudante que fosse ver sua mãi que enfermara no dia anterior.

Luciano apromptou-se depressa para sahir, e emquanto esperava que lhe trouxessem o cavallo, perguntou ao lavrador :

(continua...)

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