Por José de Alencar (1872)
Foi este pensamento de Berta, que, atraída pelo encanto desse mistério, empenhou-se em perscrutar esse ermo onde jazia no seio de uma casa e de uma consciência, ambas em ruínas, o arcano impenetrável.
De tantas vezes que assistira àquele esboço rude e taciturno de uma tragédia ignota, já conhecia Berta de todos os seus episódios e incidentes, que mais tarde ela reproduzia de memória com o afã de penetrar-lhes o sentido oculto.
Até o momento em que Zana entrava na alcova, era fácil de compreender o fato que a reminiscência da doida retraçava tão ao vivo.
A preta, que era naturalmente a cozinheira da casa, despertada pelo sol, do costumado cochilo, acendera o fogo e preparava o almoço, quando ouviu chamarem-na do interior. Deixou a ocupação, e acudiu alguém, que estava na alcova.
Aí ouviu assustada e com espanto o que lhe dizia essa pessoa, e, achegando-se à janela na ponta dos pés, enfiou os olhos na direção que lhe fora indicada. Assim permaneceu algum tempo, até que recuou espavorida, com a máscara do terror no semblante e os ossos dos joelhos a estalarem, batendo um contra o outro.
O que vira ela?
Não pudera a menina atinar ainda, nem com a explicação desse terror, nem com o resto da história, que de mais se complicava.
No meio do súbito pavor, cobrava Zana a vontade, estendia os braços crispados, parecia tomar um objeto que apertava ao seio convulso, como se quisesse esconder ou sufocar; e atirava-se fora do aposento com um ímpeto de horror que a levava até um cubículo da cozinha, onde fazia sua dormida.
Dir-se-ia que deitava o fardo no chão e corria ao fogão para tirar dali alguma coisa, que depois de moída espalhava nas palmas das mãos para ir esfregar o objeto escondido no cubículo.
Saía então ao terreiro, e passeava de um a outro lado com os modos de uma ama, ninando criancinha de colo. Era nessa ocasião que, balançando o corpo, com os braços arredondados ao peito, ela entoava a monótona cantiga, que Berta conseguira decifrar. De repente transmudava-se completamente a doida, passando daquela extrema volubilidade a uma apatia balorda. Parecia fazer-se um vácuo em suas reminiscências, que fugiam-lhe deixando a alma sepultada se intrumescia com a expressão do idiotismo.
Nesse estado de estupor, vagava a passos trôpegos pela casa, até que parava automaticamente na porta da alcova e estendia o pescoço para dentro. Devia de ser de ser horrível o espetáculo que ali surgira a seus olhos, porque depois de tantos anos, a só imagem a fulminava.
Erguia-se-lhe o corpo hirto; um grito de terror estalava no peito e vinha estrangular-se nas fauces. Volvia sobre si; e tombava ao chão, como uma pedra.
XIX
O desconhecido
Tal era o esboço grosseiro do misterioso drama, que ali se representara e do qual Berta debalde se empenhava em devassar o segredo.
Mais estimulava a sua curiosidade o cuidado com que em criança a tinham arredado da casa em ruínas, já inspirando-lhe um terror supersticioso da louca, já recomendando-lhe que nunca se dirigisse para aquela banda.
Também quando a menina queria saber a história de Zana e a razão por que a negra doida ali vivia abandonada numa casa em ruínas, que devia ter pertencido a pessoa abastada, ninguém lhe respondia; mas procuravam uma evasiva para não falar sobre tal assunto.
Tudo isto, longe de arredar a menina daquele sítio, bem ao contrário desenvolvia nela uma dessas tentações de criança que não conhecem obstáculos. A pouco e pouco, de susto em susto, animou-se ao cabo de muitas semanas a aproximar-se das ruínas e observar Zana em distância, até que afinal se convenceu que era uma criatura inofensiva a mísera doida.
Já tinha então Berta seus quinze anos, e com a afoiteza da idade também ganhara mais largueza e desenvoltura da ação para sair de casa e demorar-se fora sem inspirar cuidados.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.