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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- A senhora recorda-se do fato? É o assunto de uma das mais belas óperas do grande maestro, do imortal Rossini. Um elegante escritor francês, Méry, observa com muito chiste, que esse primor de harmonia, a música tão sublime do autor da Semíramis, foi escrito sobre um libreto indigesto, sem merecimento e até sem gramática. Isto prova, minhas senhoras, que o coração não precisa para ser eloqüente nem de sintaxe, nem de retórica. 

- Já se representou aqui no Rio de Janeiro essa ópera? perguntou D. Guilhermina.

- Guilherme Tell? Sim, minha senhora; há muitos anos.

- Qual é o enredo? 

- É com alguns episódios o fato histórico. Sabe que Gessler, governador da Suíça e homem cruel, aborrecido com a fama de bom archeiro que tinha um camponês, chamado Wilhelm, teve o bárbaro capricho de obrigá-lo a atirar ao alvo em uma maçã colocada sobre a cabeça do filho. Embora tivesse o archeiro plena confiança em sua destreza, a idéia de que uma linha podia fazer dele um assassino de seu próprio filho, o enchia de terror. Mas o que não pode a vontade do homem? A flecha arrebatou a maçã da cabeça do menino incólume. Contudo o pai já tinha outra embebida no arco. “Para que esta segunda flecha?” perguntou o tirano. 

- “Para ti, se eu tivesse a desgraça de ferir meu filho”.

- Bonito, não é, Guida? 

- É com efeito admirável, continuou o doutor; entretanto a perícia do alemão nada é a vista da destreza dos selvagens do Brasil. Estes faziam coisas incríveis. 

- Deveras? 

- Furavam os olhos de um pássaro a voar; e flechavam o peixe dentro d’água. 

- Que vista! acudiu D. Guilhermina. 

- Este ponto indica o lugar donde Guilherme Tell atirou. Aqui ele pronunciou aquela palavra que foi o primeiro grito de liberdade de sua pátria. 

- É então o Ipiranga da Suíça? disse Guida sorrindo. 

- Justamente; mas o nosso Ipiranga não tem uma fonte, nem sequer uma lápida, que comemore o dia 7 de Setembro. Bajulam-se os reis e os grandes; mas não se honra a nação. Quando eu for deputado, hei de advogar esta causa, que é a dos brios nacionais. O doutor voltou a página: 

- Esta é Friburgo, célebre por sua ermida, que um homem só, cavou na rocha viva trabalhando 25 anos; verdadeiro milagre de fé e paciência. Já ouvi contar um fato análogo, sucedido em Minas; mas esse, a ser verdadeiro, é mais para admirar porque foi um aleijado dos braços que trabalhava com os pés, e assim construiu uma capela. Desta cidade de Friburgo assim vieram os primeiros colonos que fundaram a nossa cidade do mesmo nome. 

- Ah! Nova Friburgo. O ano passado lá estivemos! exclamou uma travessa menina. 

- Eis Genebra e o seu belo lago; é a pátria de Rousseau, de Calvino, de Staël e outros personagens ilustres. 

Continuou Nogueira por algum tempo essa viagem a vôo de pensamento pelas montanhas da pitoresca Helvécia, que ele tinha visitado havia três anos. Descreveu o aspecto dos campos e bosques durante o inverno, e aquela natureza áspera e desabrida, que educa o homem para os grandes cometimentos, ensinando-lhe o trabalho, como uma defesa contra o  frio e a fome. 

Guida e as senhoras o escutavam embebidas, quando o Guimarães passou defronte da janela. 

- Onde iria o Guimarães? Perguntou o doutor com indiferença. 

- Foi convidar a pessoa que ele ficou de nos apresentar, respondeu Guida com a maior naturalidade. 

A moça ergueu-se para saber o resultado da comissão. O Guimarães vinha nadando em satisfação; de ordinário o porte do moço e a sua compostura manifestavam o enlevo que ele sentia da própria pessoa. Naquele momento, porém, era uma aleluia viva. 

A filha do comendador e o Nogueira conjenturaram que o Guimarães fora bem sucedido, mas cada um a seu modo.

- Vem; pensou a moça. 

- Não vem, felizmente! cogitou o doutor. 

O Nogueira não sabia da penitência que estava reservada ao Guimarães; por isso entendia que o motivo de sua satisfação era ver-se livre do novo e temível competidor, depois de haver delicadamente condescendido com o desejo da moça. 

- Então? perguntou Guida ao filho do procurador. 

(continua...)

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