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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

O capitão-mór sorriu-se dessa recordação de uma das mais famosas entre suas façanhas; e erguendo-se do banco onde estivera sentado, passeou um momento, enquanto compunha novamente com sua ordinária expressão de gravidade a fisionomia que durante a narrativa do mancebo se havia desarmado. 

— Bem: agora saibamos outra coisa. Estivemos ausentes cêrca de quatro meses de nossa fazenda da Oiticica pela necessidade de prover a certos negócios na cidade do Recife. Durante nossa ausência consta-nos que Arnaldo abandonara a fazenda; e tornando nós com o favor de Deus à nossa casa no sábado, só hoje ao quarto dia de nossa chegada nos parece. Que quer dizer, Arnaldo? 

— Também andei em viagem, respondeu o mancebo concisamente, mas com mostras de respeito. 

— Sua obrigação era ficar na Oiticica, donde ninguém se arreda sem nossa licença. 

— Uma vez já pedí permissão ao sr. capitão-mór para dizer-lhe que eu não pertenço ao serviço da fazenda. Não sei lidar com os homens; cada um tem seu gênio: o meu é para viver no mato. 

Tornou o Campelo ainda mais fechado: 

— Quer dar em bandoleiro, como êsses que aí andam ao cosso pelo sertão, acabando o gado das fazendas, à fiúza de matar barbatão, e praticando toda casta de maldades em suas correrias? 

Arnaldo ergueu a fronte com um assomo de escândalo contra a injuriosa suspeita. 

— O sr. capitão-mór não pode temer isso de mim. Conhece-me bem. 

— Conheço, disse o velho fazendeiro, descansando solenemente a larga mão sôbre o ombro do rapaz, a título de reparação da injustiça. 

— Vivo de pouco e Deus me dá de sobra. Não careço do alheio, nem o cobiço. Tão pouco se ligará com bandoleiros quem não pode acostumar-se à gente de melhor avença. Procuro o sertão, e moro nele para estar só. Mas fique vossa senhoria descansado, que se não presto para camarada ou vaqueiro, quando se tratar de o defender e acatar, a si e aos que lhe são caros, pode contar que não tem servidor mais pronto, nem mais devoto. Minha vida lhe pertence, é dispor dela como lhe aprouver. 

O capitão-mór se aproximara e com a voz tocada pela comoção murmurou, enquanto com um movimento rápido da mão direita abarcava ao mancebo o peito esquerdo: 

— Pois eu não sei que é de ouro êste coração? 

Recobrou-se, porém, imediatamente; outra vez formalizado, dirigiu-se a Arnaldo, guardada a gravidade e a distância. 

— Agradecemos a sua dedicação, Arnaldo; mas uma fazenda, e ainda mais, rica e importante como a Oiticica, não dispensa um regime, que mantenha quantos a ela pertencem na obediência e respeito do dono. Essa regra e disciplina não se guarda sem muito rigor, sobretudo para coibir os maus exemplos, que são motivo de escândalo para os bons e de excitação para os maus. 

— Porisso é que torno a pedir ao sr. capitão-mór que me tenha como estranho à fazenda. Sou um vagabundo que aí anda pelos matos, e que não pede senão que o deixem viver nestes campos onde nasceu. 

O capitão-mór prosseguiu sem referir-se às palavras do mancebo. 

— Na tarde de nossa chegada, quando Manuel Abreu, nosso feitor, deu-nos parte de sua ausência, Arnaldo, nós dissemos na ocasião que lhe tínhamos concedido a nossa licença. Depois considerámos que tal não houve; deu-se equívovo de nossa parte. Mas não podíamos voltar atrás, sem quebra de nossa palavra; e pois ficou sendo verdade que eu consentí na sua viagem. 

Campelo fitou no semblante do rapaz um olhar, que ia sublinhar sua palavra. 

— Esta cirscunstância fortuita nos privou de usar da severidade precisa para reprimir a desobediência a nossas ordens; e desta arte poupou-nos um desgôsto, pois Arnaldo sabe quanto prezamos o filho daquele que foi nosso vaqueiro e amigo, o bom Louredo, que Deus tenha em sua santa paz. 

Arnaldo travou da destra do capitão-mór e beijou-a com fervor, estreitando-a ao seio. Esquivou-se aquele à efusão. 

— Esperamos que não aconteçam mais faltas como esta, que nos ponham na dura necessidade de esquecer a afeição que nos merece. Sabe, Arnaldo, que lhe destinamos o lugar que serviu seu pai, de nosso primeiro vaqueiro. Só demorámos a realização desta vontade, enquanto não completava Alina os dezoito anos, para que tivesse uma boa caseira, capaz de entender com o serviço da queijaria e o trato das crias. Agora vamos avisar a D. Genoveva para que trate das bodas que se podem fazer pela Páscoa. 

O semblante do sertanejo manifestava o íntimo confrangimento d’alma ao ouvir aquelas palavras do capitão-mór. Foi com um tom sêco e incisivo que retorquiu: 

— O que posso asseverar ao sr. capitão-mór é que não serei nunca nem vaqueiro de fazenda, nem marido de mulher alguma. 

— Há de ser! 

— Outro Arnaldo sim; êste não! 

— Há de ser, e quem o diz é o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, insistiu o velho com a pachorra sonolenta que precedia as formidáveis explosões de sua cólera. 

(continua...)

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