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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

O que produzira essa agradável impressão fora um simples montículo de barro gretado, que se elevava como um pão de açúcar dois palmos acima da terra, e que estava encoberto por folhas de tanchagem. 

Era a entrada de um formigueiro, de uma dessas casas subterrâneas construídas pelos pequenos arquitetos que à força de paciência e trabalho minam um campo inteiro, e formam verdadeiras abóbadas debaixo da terra. 

Aquele que Peri descobrira tinha sido abandonado pelos seus habitantes, em virtude da enxurrada que penetrara no pequeno subterrâneo. 

O índio tirou a sua faca, e cerceando a cúpula dessa torre em miniatura, deixou a descoberto um buraco que penetrava pelo interior da terra, e decerto ia ter à baixa onde estavam reunidas as pessoas que conversavam. 

Este buraco tornou-se para ele uma espécie de tubo acústico, que lhe trazia as palavras claras e distintas. 

Sentou-se e ouviu. 


XV 

OS TRÊS 

 

Loredano que nessa mesma manhã saíra de casa tão cedo, apenas se entranhou na mata, esperou. 

Um quarto de hora depois vieram ter com ele Bento Simões e Rui Soeiro. 

Os três seguiram juntos sem dar uma palavra; o italiano caminhava adiante, e os dois aventureiros o acompanhavam trocando de vez em quando um olhar significativo. 

Por fim Rui Soeiro rompeu o silêncio: 

— Não foi decerto para espairecer pelos matos ao romper da alva, que nos fizestes vir aqui, misser Loredano? 

— Não, respondeu o italiano laconicamente. 

— Mas então desembuchai de uma vez, e não percamos tempo. 

— Esperai! 

— Que espereis, vos digo eu, atalhou Bento Simões, ides numa batida... Onde nos pretendeis levar nesta marcha?

— Vereis. 

— Já que não há meio de vos sacar mais palavra, segui com Deus, misser Loredano. 

— Sim, acudiu Rui Soeiro, segui; que nós tornamos por onde viemos. 

— Quando estiverdes de vez para falar, nos avisareis. 

E os dois aventureiros pararam dispostos a retroceder; o italiano voltou-se com um gesto de desprezo. 

— Parvos que sois! disse ele. Se vos parece, revoltai-vos agora que estais em meu poder, e que não tendes outro remédio senão seguir a minha fortuna! Voltai!... Também eu voltarei; mas para denunciar-vos a todos. 

Os dois aventureiros empalideceram. 

— Não me façais lembrar, Loredano, disse Rui Soeiro abaixando um olhar rápido para o punhal, que há um meio de fechar para sempre as bocas que se obstinam a falar. 

— Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me mataríeis no caso de que eu vos quisesse denunciar? 

— À fé que sim! respondeu Rui Soeiro com um tom que mostrava a sua resolução. 

— E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que as vossas venetas, misser italiano. 

— E que ganharíeis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo. 

— Essa é melhor! que ganharíamos? Achais que é coisa de pequena valia assegurar a sua existência e o seu descanso? 

— Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa laia, ele deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos incidentes? 

— Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Rui Soeiro; será morte antes que homizio. 

— Direis melhor, execução, Rui Soeiro! retrucou Bento Simões. 

O italiano continuou: 

— Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de longe, ate mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me. 

— Quereis gracejar, misser italiano? A ocasião não é azada. 

— A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de D. Antônio de Mariz o meu testamento, que ele deve abrir quando me saiba ou me julgue morto. Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim para que trabalhamos. 

Os dois aventureiros tornaram-se lívidos como espetros. 

— Compreendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes, se um acidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo fugir e fazer supor que morri, estais perdidos irremediavelmente. 

Bento Simões ficou paralisado como se uma catalepsia o tivesse fulminado. Rui Soeiro, apesar do violento abalo que sentia, conseguiu com um esforço recobrar a palavra. 

— É impossível!... gritou ele. isso que dizeis é falso. Não há homem que o fizesse. 

— Ponde à prova! respondeu o italiano calmo e impassível. 

(continua...)

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