Por José de Alencar (1873)
Uma hora depois nos quatro cantos da cidade corria a voz de que o motivo da excomunhão fulminada pelo prelado não era outro no fundo, senão a raiva de ver burlados os seus requebros pela filha do tabelião.
A tia Pôncia tinha lançado em uma ou duas casas de terço, por onde passou, aquela semente que brotou com rapidez espantosa. O povo murmurava: e teria dado desde logo sinais de descontentamento, se não fosse a hora da noite, pois já estavam muitos recolhidos.
Em todo o caso o motim ficava armado pelas comadres, tão jeitosamente como o fariam as gazetas, que são as comadres do tempo de agora.
XXII
UMA CERIMÔNIA QUE JÁ NÃO SE VÊ HOJE EM DIA, APESAR
DE AINDA HAVER PROCISSÕES E MASCARADAS DE IGREJA
Amanheceu o dia 3 de novembro sob a grave expectação de um grande acontecimento.
Muito antes das primeiras e tênues alvoradas, abriam-se as portas das casas e os moradores vinham à soleira, na esperança de colher algum vago rumor, que lhes comunicasse o começo do sucesso extraordinário que todos esperavam, mas ninguém previa qual fosse.
Avistando-se uns aos outros, inquiriam-se mutuamente acerca do caso que os punha em alvoroto; mas nada com isso adiantavam, pois nada mais sabiam além do zunzum, que tinha corrido a noite passada, e a que dera causa a indiscrição do Padre Rafael Cardoso.
Quando a primeira barra listrou o horizonte sereno e esclareceu os cimos da Jurujuba, o Dr. Pedro de Mustre Portugal saiu de sua casa, e acompanhado por sua comitiva, composta de dois beleguins e um galego, dirigia-se ao porto a fim de embarcar para o Espírito Santo.
À porta os vizinhos e alguns curiosos que tinham vindo ao cheiro da novidade, se despediam do magistrado com os costumados votos:
— Boa viagem, senhor ouvidor!
— Deus o acompanhe!
— Amém! E o traga a salvamento.
— Que vossa mercê torne, como vai, na paz do Senhor!
E outras muitas variantes da mesma cortesia, a que o Dr. Pedro de Mustre respondia:
— Obrigado, minha gente! Obrigado; até a volta em que espero achá-los a todos em paz com a sua consciência e com a justiça.
Nisso rompeu entre os presentes o Padre Rafael Cardoso, acompanhado de dois acólitos com tochas acesas. Perfilando-se em frente ao magistrado, desdobrou um papel onde se via o grande selo da Igreja, e alçando-o com a mão esquerda à guisa de estandarte, levantou-se no bico dos pés a fim de fulminar do alto com a palavra e o gesto ao corpulento magistrado:
— Auctoritate Dei Patris Omnipotentis et Filii et Spiritus Sancti et beatæ Dei genitricis Mariæ, omniumque Sanctorum, pro Vicario generale, te excommunicamus, doctor Petrus de Mustre Portugalis, anathematisamus, et a limitibus sanctæ matris Ecclesiæ sequestramus; et nisi resipuerint et ad satisfactionem venerint sic extinguetur lucerna eorum ante viventem in sæcula sæculorum.
Depois de ter ejaculado de um jorro a fórmula do ritual romano, o reverendo ingurgitou-se como um odre para gritar, vibrando a execração com braço hirto:
— Anathema sit! Amen! Amen! Amen!
O povo em torno caíra de joelhos e automaticamente, possuído de indizível terror, ia repetindo: — Amém!
Ficara o Dr. Pedro de Mustre atordoado com a excomunhão maior que lhe acabava de lançar o padre. Além de não acreditar que o vigário-geral fosse capaz de levar a efeito a sua ameaça, a solenidade da cerimônia e o terror que infundia no povo, o deixaram profundamente abalado.
Quando deu por si, estava só, no meio da rua; já o isolamento do réprobo caía sobre ele; nas esquinas ainda aparecia alguma gente a olhar o maldito; mas não ousava aproximar-se; e os próprios meirinhos, um tanto arredados, procuravam um pretexto para se escamarem.
Ordenou-lhes o ouvidor que levassem aviso do acontecido a alguns amigos e pessoas de conselho, pedindo-lhes para virem à sua casa; feito o que recolheu-se a esperar que chegassem para deliberar com eles no mais consoante à difícil conjuntura em que se achava.
Entretanto o povo afluía para a casa da Câmara, onde naquele tempo se consultavam e decidiam os mais graves negócios da governação e regimento da terra; pois aí estavam os juízes e procuradores do povo que formavam o Senado da cidade.
Isto sucedia naquele bom tempo de governo absoluto em que havia franqueza e lisura. Agora que se diz por aí vivermos em regime constitucional ainda se ajuntam no mesmo sítio onde era a antiga vereança, os que se inculcam de representantes da nação; mas já nas suas obras de aflição, nos seus dias inquietos, o povo não aflui mais para ali, pois tem os mais olhos voltados para São Cristóvão.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.