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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Lembrou-se enfim, depois de mil outras lembranças, do serão que houvera nessa noite; dessa primeira vez que com Cândido dançara, da perturbação de ambos durante toda a quadrilha; dos monossílabos que lhe ouvira; e do fundo do coração agradeceu ao bom velho e seu avô, que lhe fizera conhecer nessa noite quando é que é belo o dançar.

De tudo isto era preciso tirar uma conclusão... a lógica do coração estava provavelmente oferecendo à “Bela Órfã” uma conseqüência positiva e inquestionável, que apenas os véus da inocência podiam encobrir ainda, quando ela foi arrancada de suas cogitações por uma voz sonora e doce, que entoava, posto que em tom baixo, um canto melancólico.

Ela escutou... o canto saía do sótão do “Purgatório-trigueiro”.

A voz que cantava era a de Cândido.

A noite mais bela, mais feliz dentre todas as noites da vida do mancebo, era aquela que se estava passando.

Ao terminar o serão deixou o “Céu cor-de-rosa” com saudades, mas sem aquela acerba amargura que o obumbrava sempre.

O coração do mancebo estava repleto de felicidade e de esperança, e seu pensamento cheio de belas imagens.

Estava Cândido em uma dessas noites de magia em que a vida se desenha toda em tintas cor-de-rosa... noites de mentira, em que a imaginação nos pinta tão fácil tudo que ambicionamos!

Um bom velho, cujos pés ele quereria beijar agradecido, lhe marcara, durante cinco minutos, um lugar junto daquela que era em sua opinião a mais perfeita das criaturas. Aí ele bebera o ar que ela respirava, mais perfumado ainda que o aroma das melhores flores. Aí tivera ele sobre as suas duas mãozinhas mais brancas, mais livres que as penas de uma garça; ali ouvira ele frases, monossílabos tão melodiosos como harmonias moduladas por um anjo.

E depois, por detrás das cortinas de um leito virgem, que era como o brando cálice da flor, que nele se deitava, ouvira Cândido a revelação do sonho de uma donzela. Sonho que todo inteiro respirava amor; mas um amor tão puro, tão poético, tão celeste, qual só caberia no coração de um querubim...

Oh! como realmente ficaria a cabeça daquele pobre mancebo, que tinha também imaginação ardente, escutando aquele romance enfeitiçado, onde o coração de uma virgem se transformava em botão de rosa, que não podia ser colhido nem pela riqueza, nem pelas factícias grandezas sociais, mas e somente pelo mérito distinto e real?..

Portanto, para aquela meiga pomba do Senhor Deus, para Celina, a pobreza não era um crime, não era – morféia. – A riqueza, embora mal adquirida, não era o tudo que governa o mundo. O belo, isto é, o mérito e virtude, que são as grandes belezas aos olhos de Deus, o belo é que podia ganhar o – pomo da ventura – colher o botão de rosa!

Portanto, não lhe estava fechada a porta daquele paraíso. Não havia ali no alpendre do “Céu cor-de-rosa” um demônio com uma bolsa por coração, que, ao querer um pobre penetrar naquele santuário de amor, lhe bradasse com a voz sinistra dos demônios da época: “aqui não entras!”

Portanto se ele fosse nobre e ativo, se trabalhasse, se procedesse como homem de honra, se com estudo profundo e incessante mostrasse que tinha capacidade e engenho, se com a observação das leis da religião de Cristo somente (porque as dos homens ou são essas mesmas leis enunciadas com mais difusão, e apropriadas a diversas especialidades, ou são leis falsas e bárbaras), trilhasse sempre as vias da virtude, podia, tinha o direito de pretender o pomo da ventura, de colher o botão de rosa.

A felicidade enchia, pois, a alma de Cândido. Já um abismo não o separava de Celina; já não se envergonhava de confessar a si mesmo que a amava. Orgulhava-se antes de amá-la e com o coração na terra preso aos pés da “Bela Órfã”, e a alma voltada para o céu, e toda embebida na bondade imensa do Criador, ele concebia a mais lisonjeira das esperanças; e a cifrava em uma palavra sagrada: – Deus.

Em um momento de explosão de ardor e esperança, o mancebo saiu da janela, e sentando-se junto à mesa, escreveu durante muito tempo com a rapidez e o ardor de um poeta entusiasmado.

Quando acabou de escrever correu ao lugar onde estava há tanto tempo esquecida a sua harpa e abraçando-se com ela:

– Oh! minha harpa! exclamou; minha querida companheira das tristezas e das saudades, vem outra vez emparceirar-te comigo; mas sê-me agora parceira na esperança.

Então com prazer imenso e sofreguidão notável, encordoou o instrumento, afinou-o prontamente, e sentando-se de novo à janela, cantou em meia-voz...

Era essa a voz que surpreendera Celina no meio das revelações que ela a si mesma estava fazendo dos mistérios de seu inocente coração.

A “Bela Órfã” estendeu um pouco o pescoço, e aplicou apurada atenção.

Infelizmente as auras da noite levavam os sons para o lado oposto, e o cantor noturno parecia empregar bastante cuidado para não elevar a voz, que era doce, maviosa e tocante.

(continua...)

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