Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Oh!... se a queria! mas para ganhar minha vida, andando pelo mundo a mostrá-la como raridade; que carão, minha prima, que carão!...
— Quanto mais se ela não andasse de vestido tão comprido.
— Então por quê?
— Tem as pernas enormemente zambras, e um pé duas polegadas maior do que o outro.
— Bravo! que belo achado!
— Mas que é isto, meu primo, que alegria é essa?...
— Um feliz achado; um amigo meu se ocupa em escrever os Mistérios do Rio de Janeiro, e vou oferecer-lhe em D. Inácia, uma cambeta.
— Cala-te, língua má! disse por entre risadas de gosto Tomásia, cala-te e esperemos todos pelas nossas visitas.
No entanto, que estas cenas se passavam em casa de Venâncio, em duas outras casas estiveram desde as sete até às oito horas e meia da noite, demonstrando toda a sua paciência dois pobres homens, mártires da moda.
Porque, em verdade, não é um martírio; mas é a provação mais segura da paciência de um homem, o fazê-lo esperar por uma senhora, gamenha, que se veste para sair; assim como no fogo se prova o ouro e a prata, assim também nessa longa hora, em que o pai ou marido leva a bocejar, coçar a cabeça, passear pela sala e consultar o relógio, fica-lhe provada a santa virtude da paciência, e, o que é mais, são-lhe de justiça descontados boa meia dúzia de seus pequenos pecados.
De ordinário as senhoras fazem voto de sair cedo de casa, pois que, principalmente entre as moças, não se conta uma só que não beba os ares por uma noite de teatro, de visita às amigas, ou de passeio pela Rua do Ouvidor; mas, quando se vêem defronte do toucador (aqui para nós, um toucador é a cachaça das moças) esquecem-se das horas que passam, e de lá se não desgrudam, sem que os pais ou maridos gritem por elas cem vezes, de cansados de esperar que se acham.
Há, no entanto, duas cenas sobremaneira apreciáveis: aqui se vê um homem que, apertado dentro de sua casaca e enforcado por sua gravata, passeia impaciente ao longo da sala; lá, uma ou meia dúzia de moças, que, firmes ante o toucador, dão graças à natureza, pois não há nenhuma que se não julgue bonita, e arengam e gritam com as escravas e criadas para que as apertem até o ponto de sufocá-las.
Na sala, o pobre homem exclama de momento a momento: “andem, senhoras! venham meninas! pois ainda não estão prontas?”... do toucador responde umas delas: “já vamos, meu paizinho! estamos pondo os anéis” e ainda lhes falta todo o ânimo preciso para afastar-se defronte do feiticeiro toucador... e ainda elas se ocupam em beliscar as orelhas para torná-las vermelhas, em morder os lábios para fazê-los rubros, em preparar certo mover neles para fingir um sorriso, com que derrotem, quem o merecer, e ensaiar um quebrar de olhos com que ponham em fino cascalho o coração mais de pedra que lhes venha à mente conquistar.
Finalmente, depois que na sala muito se esperou e se gritou, sai a senhora do toucador, exclamando que não se pode aturar um homem rabujento, e as meninas confessando em segredo que seu paizinho, à medida que se vai fazendo mais velho, se está tornando mais impertinente. Ainda ao descer a escada, e mesmo da porta da rua, elas voltam ou mandam buscar o vidro de essência de rosas, a flor, o leque, o lencinho escolhido e outras coisinhas, de que ordinariamente se esquecem para lembrar-se nesse lugar o que não deixa de ter seu mérito no grande tom. Em resultado é sempre uma vitória de peso o vê-las em ordem de marcha. As senhoras negam estas observações; mas... respondam os mártires. Foi pouco mais ou menos isto mesmo o que se passou com o Sr. Estanislau, e com Brás-mimoso, que tinha sido convidado para acompanhar D. Mafalda.
Às oito horas e meia da noite chegaram as visitas com diferença de minutos uma da outra. Escusado é dizer que muito tempo gastaram as senhoras em dar-se muitos beijos, e em dizer-se mil coisinhas muito lisonjeiras, de que no interior elas mesmas se estavam rindo por havê-las dito.
Achavam-se, pois, presentes o Sr. Estanislau com sua mulher, filha e filho; o Sr. Brásmimoso com D. Mafalda, e D. Inácia; e Venâncio, Tomásia, Rosa e Félix.
Manduca tinha ido a um teatrinho de bonecos; divertimento de que era muitíssimo apaixonado.
Depois de sentados na sala, a sessão começou, como era de esperar, pela apresentação da recém-nascida, que foi trazida e mostrada a todos, passando pelo colo de todas as senhoras, recebendo um beijinho de cada uma delas.
— Dou-lhe os parabéns, Sr.ª D. Tomásia, disse D. Carlota, que assim se chamava a mulher de Estanislau; sua filha é um perfeito cupidinho.
— E que viveza, minha senhora!... quando me vê já estende os bracinhos e move com os lábios, como para dizer — mamãe; olhe — Má já ela chegou a dizer ontem à tarde... é o meu encanto... ri-se... brinca... conhece a todos de casa... não chora de noite... enfim, não é por ser minha filha, mas eu nunca vi criança como esta.
— Isso é verdade... eu nunca vi criança como esta, disse automaticamente Venâncio.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.