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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― As minhas jóias já ele me disse que valeriam quatro ou cinco contos – ajuntou Ângela para aliviar dos escrúpulos a meticulosa criada. – Quando ele (ele era o marido) desse fé que eu dispusera destes brilhantes lá tem os de minha mãe para se ressarcir.

― Mas o pior é se ele pergunta a quem vossa excelência deu o dinheiro... – contrariou a sisuda velha.

― Se pergunta, responderei “dei-o”. Verás que sou pontual no que prometo, se chegar essa ocasião.

― Deus nos acuda por sua sagrada paixão, e morte!... – esconjurou Vitorina, e acomodou-se para não agourentar a exultação da ama.

No dia seguinte, à hora aprazada, chegou a irmã de Francisco Costa. Foi recebida com grande contentamento.

― A minha amiga – disse a filha do general com a mesma gravidade do dia anterior – continua a jurar pela memória de seu marido que fará quanto eu lhe disser, e não revelará a seu irmão palavra do que se aqui passar. Jura?

― Farei o que vossa excelência disser, sendo coisa que não possa acarretar-lhe desgostos.

― Não me ponha condições; se mas põem, torna-me mais desgraçada do que eu era – disse Ângela com transporte, perdendo por instantes a alegria que lhe iluminava o rosto.

― Farei o que vossa excelência mandar.

― Bem. Escute-me. Quero que a senhora mude de situação, de casa, e de tudo. Quero que seu irmão continue os seus estudos. Quero restituir-lhe o que perdeu com a morte de seu marido...

― Ó minha senhora, vossa excelência...

― Deixe-me falar. Quero que seu irmão nem em sonhos possa conjecturar donde a minha amiga recebe os recursos. Ajude-me a pensar; como há de ser isto? Como poderemos nós enganá-lo?

― Não sei, minha senhora... Meu irmão sabe que eu nada tenho, e que os nossos parentes todos são pobres...

― Eu pensei toda a noite nisto. Inventei uma mentira inocente. Veja se tem jeito... Parece-me que sim... A minha querida amiga finja que uma pessoa de Viana, que não se declara, ficou devendo em consciência a seu marido certa quantia de dinheiro, e quer restituí-la porque tem remorsos de ter contribuído para a perda e morte do Sr. José Maria. Compreende?

― Sim, minha senhora; mas...

― Espere. Ouça o resto. Essa pessoa diz na carta que irá remetendo, de tempo a tempo, a quantia que deve, e declara que não é pequena a restituição. Para que seu irmão possa, sem receio de ser interrompido por falta de meios, continuar o seu curso. Que lhe parece?

― Não me parece mal; mas se meu irmão quer entrar em averiguações...

― Na carta há de dizer a pessoa que das averiguações, se se fizerem, resulta a suspensão dos pagamentos, porque o restituidor não se esconde de Deus, mas quer esconder-se do mundo. Pensei em tudo.

― Mas quem há de escrever a carta? – argumentou Joana.

― Olhem a grande dificuldade! Escrevo-a eu.

― Mas ele conhece a letra de vossa excelência...

― Que novidade! Deixe-me acabar... Escrevo-a eu, e Vitorina chama um rapaz da escola, e paga-lhe para que a copie; e, depois, a carta finge-se trazida por um sujeito desconhecido, que a procura em sua casa enquanto seu irmão está no escritório, e lha entrega com este dinheiro.

E, dizendo, entregava a Joana os 250$000 réis em uma saquinha.

A irmã de Francisco hesitava em receber. Ângela lançou-lhe a saca ao regaço, e disse:

― Com esses modos não me deixa gozar todo o contentamento com que Deus me está compensando o martírio de quatro anos! Minha amiga, deixe-me inteiro este gozo, por quem é! Por alma de seu marido lhe rogo!

Lavada em lágrimas, Joana inclinou-se a querer beijar os pés da fidalga, que a estreitou com transporte ao coração.

― Vá que são horas – disse Ângela – guarde o dinheiro onde seu mano o não veja. Amanhã torne à mesma hora, que já hei de cá ter a carta. Fico muito alegre. Vou agradecer a Deus este raio de sol. Não me acha hoje mais bonita? Mais nova? Olhe o que faz a felicidade!... Há quatro anos à espera desta hora!... É hoje a primeira vez que vejo seu marido a sorrir para mim do outro mundo!... Não chore, que ele não quer. Vá, vá minha amiga...

Joana saiu enxugando as lágrimas, e entrou no primeiro templo que encontrou aberto a pedir ao Senhor que abençoasse a caridade da virtuosa Ângela.

Saiu-lhe bem logrado o plano à consolada senhora.

Francisco José da Costa leu a carta como assombrado dum caso de restituição em tempos de tanta filosofia alumiadora dos espíritos – quando para castigo de ladrões já não havia inferno, nem para glória de arrependidos céu. Contou o dinheiro, e disse à irmã:

― Agora, minha pobre Joana, cessa de trabalhar. Vai vivendo do que receberes, que eu para mim cá me arranjarei com os três tostões da escrivaninha.

― Isso acabou, Francisco. Deixaste de ser amanuense de tabelião.

― Estás doida com a tua felicidade dos 250$000 réis!...

(continua...)

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