Por Lima Barreto (1922)
Era ir para a mesa, lá lhe aparecia a dor e o cozido com os seus pertences, muito cheiroso, rico de couves, farto de toucinho e abóbora, olhava-o, namorava-o e ele namorava o cozido sem ânimo de mastigá-lo, de devorá-lo, de engoli-lo com aquele ardor que a sua robustez e o seu desejo exigiam.
Krat Ben Suza era solteiro e quase casto.
Na sua ambição de pequeno comerciante, de humilde aldeão tangido pela vida e pela sociedade para a riqueza e para a fortuna, tinha recalcado todas as satisfações da vida, o amor fecundo ou infecundo, o vestuário, os passeios, a sociabilidade, os divertimentos, para só pensar nos contos de réis que lhe dariam a forra mais tarde, com toda a certeza, do seu quase ascetismo atual, no balcão de uma venda dos subúrbios.
À mesa, porém, ele sacrificava um pouco do seu ideal de opulência e gastava sem pena na carne, nas verduras, nos legumes, no peixe, nas batatas, no bacalhau que, depois do cozido, era o seu prato predileto.
Desta forma, aquela dorzita no estômago o fazia sofrer extraordinariamente. Ele se privava do amor; - mas que importava se daqui a anos, ele pagaria para seu gozo, em dinheiro, em jóias, em carruagens, em casamento até, corpos macios, veludosos, cuidados, perfumados, os mais cama que houvesse aqui ou na Europa; ele se privava de teatros, de roupas finas, mas que importava, se dentro de alguns anos, ele poderia ir aos primeiros teatros daqui ou da Europa com as mais caras que escolhesse; mas deixar de comer — isto não! Era preciso que o corpo estivesse sempre bem nutrido para aquela faina de quatorze ou quinze horas por dia, a servir ao balcão, a ralhar com os caixeiros, a suportar os desaforos dos fregueses e a ter cuidado com os calotes.
Certo dia, ele leu nos jornais a notícia que o doutor Adhil Ben Thaft tinha tido permissão do governo para dar alguns tiros com os grandes canhões do grande couraçado da esquadra do país — "Witopá".
Leu a notícia toda e feriu-lhe o fato da informação dizer: "Esse maravilhoso clínico é, certamente, um exímio artilheiro..."
Clínico maravilhoso! Com muito esforço de memória, pôde conseguir recordar-se de que aquele nome já por ele fora lido em qualquer parte.
Maravilhoso clínico! Quem sabe se ele, não curaria daquela dorzita ali, no estômago? Meditava assim, quando lhe entra pela venda adentro, o Sr. Hutekle, empregado na Repartição das Arapucas, funcionário público, homem sério e pontual no pagamento.
Krat foi-lhe logo perguntando:
— Senhor Hutekle, o senhor conhece o doutor Adhil Ben Tad?
— Thaft, emendou o outro.
— Isto mesmo. Conhece-o, Senhor Hutekle?
— Conheço.
— E bom médico?
— Milagroso. Monta a cavalo, joga xadrez, escreve muito bem, é um excelente orador, grande poeta, músico, pintor, goal-keeper dos primeiros...
— Então é um bom médico, não é meu caro senhor?
— É. Foi quem salvou a minha mulher. Custou-me caro... Duas consultas...
— Quanto?
— Cinqüenta mil-réis cada uma... Some.
O merceeiro guardou a informação, mas não se resolveu imediatamente a ir consultar o famoso taumturgo urbano. Cinqüenta mil-réis!
E se não ficasse curado com uma única consulta? Mais cinqüenta...
Viu na mesa o cozido, olente, fumegante, farto de nabos e couves, rico de toucinho e abóbora vermelha, a namorá-lo e ele a namorar o prato, sem poder gozá-lo com o ardor e a paixão que o seu desejo pedia. Pensou dias e afinal decidiu-se a descer até à cidade, para ouvir a opinião do doutor Adhil Ben Thaft sobre a sua dor no estômago, que lhe aparecia de onde em onde.
Vestiu-se o melhor que pôde, dispôs-se a suportar o suplício das botas, pôs ao colete o relógio, a corrente e o medalhão de ouro com a enorme estrela de brilhante que parece ser o distintivo dos pequenos e grandes negociantes de todas as terras, e encaminhou-se para a estação da estrada de ferro. Ei-lo no centro da cidade.
Adquiriu a entrada, isto é, o cartão, nas mãos do contínuo do consultório, despedindo-se dos seus cinqüenta mil-réis com a dor de pai que leva um filho ao cemitério. Ainda se o doutor fosse seu freguês... Mas qual! Aqueles não voltariam mais...
Sentou-se entre 'cavalheiros bem vestidos e damas perfumadas. Evitou encarar os cavalheiros e teve medo das damas... Sentia bem o seu opróbrio, não de ser taverneiro, mas de só possuir de economias duas miseráveis dezenas de contos... Se tivesse algumas centenas — então, sim, ele! — ele poderia olhar aquela gente com toda a segurança da fortuna, de dinheiro, que havia de alcançar certamente, dentro de anos, o mais breve possível.
Um a um, iam eles entrando para o
interior do consultório; e pouco se demoravam. Suza, começou a ficar
desconfiado... Diabo! Assim tão depressa?
Boa profissão, a de médico! Ah! Se o pai tivesse sabido disso... Mas
qual! Pobre pai! Ele mal podia com o
peso da mulher e dos filhos, como havia de pagar-lhe mestres? Cada um enriquece
como pode...
(continua...)
BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.