Por Lima Barreto (1922)
Aos vinte e dois anos, José, que se aborrecia com aquela vida, pôs o pé no mundo e correu, durante uns trinta, o interior das antigas províncias do Rio, Minas e São Paulo. Tudo ele foi; tudo sofreu, mas sempre inquebrantavelmente honesto. Aqui, foi guarda-livros de um armazém; numa fazenda, administrador; num vilarejo, professor das primeiras letras; em certa idade, encontrou um boticário simpático, que se fez seu amigo, ensinou-lhe a manipular drogas, também a obturar e limpar dentes, e a passar pequenas receitas. Foi onde se demorou mais; mas isto se veio a dar já no fim da sua carreira vagabunda, quando já não podia mudar de rumo. Na vizinhança da cidade, construía-se um depósito e modestas oficinas de pequenos reparos, para as máquinas de um ramal férreo que lá ia ter. José, que seguia as obras e via as máquinas, ficou assombrado com aquelas maravilhas de caldeiras, fornalhas, bielas, manivelas, alavancas, que se coordenavam para mover e parar aqueles hediondos monstros de ferro — as locomotivas. Quis entrar no segredo de tudo aquilo e fazia perguntas sobre perguntas. No começo, os operários explicavam; mas as perguntas eram tais e tantas, que eles acabaram por se aborrecer com elas e com o velho perguntador. Meneses não se aborreceu, pois se sentia com a vocação de engenharia e de engenheiro. Ali, porém, não tinha onde estudar. Convinha descer para o Rio de Janeiro, freqüentar aulas teóricas e aperfeiçoar-se em oficinas adequadas. O dinheiro que tinha era pouco, mas o boticão sempre dava alguma coisa, e a renda tinha aumentado, graças à afluência de operários para acabamento da estradinha local. Demais, também receitava. Fazia alguma coisa: a questão era economizar. Assim fez e, durante um ano, poupou o dinheiro necessário para ir estabelecer-se no Rio e esperar uma colocação qualquer. O seu amigo farmacêutico não o quis dissuadir, mas disse-lhe:
— Se você fosse mais moço, aconselharia até, porque se projetam grandes obras, no Rio; mas, já tendo passado dos cinqüenta, é fazer o que parecer melhor a você. Em todo o caso, vou pedir ao Coronel Carvalho uma recomendação.
Durante esse longo lapso de tempo que vivera fora da família, recebera vagas notícias de seus pais e irmãos. Sabia que os pais tinham morrido e quase todos os irmãos; e que o único que lhe restava era remador da Capitania do Porto e mantinha a irmã solteira, a única que tivera. Moravam lá para a Saúde.
Meneses embarcou contente; ia afinal realizar a sua vocação. Até agora, não a tinha encontrado; mas, desde que vira aquelas máquinas e maquinismos, sentira outra coisa dentro de si. Não deixou, entretanto, de levar a mala dos ferros de dentista e a carta de recomendação.
No dia seguinte, depois de uma noite insípida no hotel, foi, indagando daqui, informando-se dali, até à Capitania do Porto.
Perguntou pelo remador seu irmão e, sem dificuldades, lhe informaram que, em breve, ele viria. Não esperou muito. Um homenzarrão forte, tostado, com um vestuário de marinheiro, chegou-se ao porteiro e perguntou:
— Quem é que me procura?
O porteiro apontou Meneses, sentado a um banco, e disse:
— É aquele senhor ali.
O irmão não deu muitos passos em sua direção; Meneses ergueu-se logo, correu-lhe ao encontro, perguntando:
— Você não me conhece mais?
— Não, senhor.
— Sou o seu irmão Juca.
Abraçaram-se muito, e o irmão Leopoldo foi dizer ao porteiro quem era e o que havia.
— Há trinta anos! — exclamou o porteiro. — Você devia ser muito criança — hein, Leopoldo?
O marinheiro respondeu:
— Devia ter cinco anos.
— É verdade — informou Meneses.
Leopoldo foi arranjar licença para acompanhar o irmão que não via há trinta anos; e Meneses ficou a conversar com o porteiro sobre coisas da roça.
— Ah! Então o Senhor é engenheiro?
— Sim, mas mecânico. Trabalho, porém, com o nível e com o trânsito. — Agora, deve haver muito trabalho para engenheiro; vão-se fazer grandes obras... Aproveite, doutor!
— Trago aqui uma carta para o Deputado Sepúlveda. Tem influência?
— Muita! É o pensamento da política mineira... Não lhe deixe a aba do fraque, doutor!
A conversa foi interrompida pela chegada de Leopoldo, que obtivera a licença. Pelo caminho, porém, contou a Meneses como todos morreram; como ele se empregara na Capitania e casara a irmã com um colega, o Pedro Rocha, rapaz bom, bem comportado, do qual tinha um sobrinho, Edmundo, com seis anos, e com o qual morava, na rua do Livramento.
Chegando à casa do cunhado e do irmão, a sua irmã Etelvina, que ele deixara com sete ou oito anos, não o reconheceu; e, em breve, tendo-lhe chegado o marido, foi uma festa de que só não participou o sobrinho de seis anos, sempre de nariz sujo e vestes rotas, arredio e agarrado às saias da mãe, mas sem querer tornar a bênção ao tio.
A irmã logo convidou o irmão mais velho a ficar com eles. Havia um barracão no quintal, que, bem reparado, podia servir para Leopoldo, e o quarto deste ficaria para o Juca. Enquanto não estivesse em estado, ele teria a paciência de dormir com Leopoldo. Meneses aceitou o alvitre, dizendo:
— Se eu tenho que gastar em outra parte...
Logo foi interrompido por todos:
— Oh! Não, não Juca!
— Não é esse motivo! — fez o cunhado.
— Não seja essa a dúvida, mano Juca.
(continua...)
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.