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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

No poema de sua vida, poema caprichoso e fantástico, escrito au jour le jour, ora com lágrimas, ora com champanha, Teobaldo representava talvez a página mais sentida e com certeza uma das mais recentes e palpitantes.

Mas, que diabo tinha consigo aquele rapaz para enfeitiçar desse modo as mulheres de toda a espécie? Que fluido misterioso espalhava ele em torno de si, com a ironia de seus risos, com o desdém de seus olhos, com a fidalguia de suas maneiras, para as render tão cativas e arrastá-las a seus pés, como Cristo antigamente?

Leonília vira-o uma noite, por acaso, no teatro, desejou-o logo e pediu a um amigo comum que lho apresentasse.

Teobaldo tratou-a com o mesmo sedutor e natural desinteresse que costumava usar para as mulheres desse gênero; mas depois, quando a conheceu mais de perto e teve ocasião de compulsar-lhe o espírito, principiou a distingui-la entre todas as outras com certa preferencia.

Leonília, porém, no solipsismo da sua paixão, não se contentou com isso e quis amor, amor tão bom e tão ardente como o que ela lhe dava.

Louca! Teobaldo não era homem para essas transações e, à primeira cena de ciúmes que lhe fez a amante, tomou o chapéu e desertou da alcova dela, sem lhe atirar ao menos uma palavra de despedida.

A loureira apanhou entredentes a afronta e resolveu lançá-lo à vala comum dos seus amores esquecidos; mas tal energia só durou enquanto durou a esperança de ver Teobaldo regressar aos seus braços; e, logo que se convenceu de que o ingrato não voltava, calcou no coração todos os reclamos do orgulho e foi ao encontro dele.

O adorado moço consentiu em tornar à abandonada alcova, mas consentiu friamente, como por mera condescendência, e fazendo-se rogar aos seus carinhos.

Leonília submeteu-se. Precisava daquele demônio para a sua ventura; que diabo havia de fazer? Todavia, a uma palavra de ressentimento que lhe escapou uma ocasião ao jantar, Teobaldo soltou-lhe, em cheio no rosto, uma tremenda bofetada e desapareceu de novo. Foi depois deste episódio que ela o procurou em casa pela primeira vez. E não o fez esperar muito, visto que já calculava com experiência que o rapaz não voltaria por motu proprio.

Ernestina, coitada, é que ficou brutalmente ferida no seu amor próprio. Ao sair do quarto ia tonta, estrangulada de raiva; mas, ferida por uma Idéia voltou logo ao segundo andar, fechou-se por dentro e disse a Teobaldo, que nessa ocasião se aprontava para sair de novo:

- Você não há de agora sair de casa!

- Por quê? perguntou o rapaz, atando a gravata de fronte do espelho.

- Porque não quero!

- Não quer? Tem graça!

- Verá!

- Veremos!

E, quando ele deu por finda a sua toilette, aproximou-se de Ernestina:

- Vamos, filha, basta de tolice! Dá-me a chave.

- Não quero que saia, já disse!

- Dá-me a chave por bem ou eu te obrigo a dar-me à força!...

Ernestina passou-lhe os braços em volta do pescoço.

- Não sejas mau! disse chorando; não judies comigo deste modo!

Dá-me o diabo dessa chave! berrou ele, soltando-lhe um empurrão.

A rapariga deixou-se cair por terra e começou a soluçar.

- Ora pílulas! rosnou Teobaldo, avançando sobre a porta disposto a arrombá-la com um pontapé. Mas nesse momento alguém bateu pelo lado de fora e ele estacou, perguntando com um grito:

- Quem é?

- Abra! respondeu uma voz.

- Estou perdida!... gaguejou Ernestina. É o Almeida.

- Bonito! pensou o estudante; vamos ter escândalo!...

E, voltando-se para a mulher:

- Abra a porta!

- Abrir? E onde me escondo?

- Em parte alguma. Fique!

Ernestina entregou a chave a Teobaldo, abriu a porta. Mas, enquanto ele fazia isto, ela, apanhando as saias, fugia para a alcova imediata.

- Entre! disse o moço, empurrando com um movimento desembaraçado a folha da porta.O Almeida entrou; estava mais vermelho cinqüenta por cento do que era de costume. O seu colete branco, boleado pelo grande abdome, arfava; os músculos faciais tremiam-lhe como as carnes de um bêbado velho.

Pela primeira vez Teobaldo reparou bem para aquele tipo. Notou, obra de um segundo, que ele tinha na fisionomia e no feitio do corpo alguma coisa que lembrava uma foca; notou que as suíças do Almeida principiavam logo por debaixo dos olhos e perdiam-se por dentro do colarinho: notou que ele tinha uma cabeça quase quadrada, encalvecida pela face superior; notou que o nariz do homem não era grego, nem árabe, nem tampouco romano e que, se o separassem do rosto, ninguém seria capaz de dizer o que aquilo era, e tanto podiam supor que seria um legume ensopado, como um pólipo extraído ou um mexilhão fora da casca; e notou ainda que o Almeida constava de quatro pés de altura sobre outros tantos de largura e que as mãos dele eram tão papudas, tão escarlates e tão reluzentes de suor, que pareciam esfoladas.

(continua...)

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