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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Por isso mesmo não devemos despedi-lo... Observou o cura. Se ele não tem para onde ir, como quer a tia Salomé que o ponhamos fora de casa? Seria matá-lo de penúria!...

A criada abaixou a cabeça e disse, de si para si, a endireitar o seu avental:— E mesmo um coração de anjo! ...

— Ouça, minha boa Salomé... acrescentou Ângelo, pousando-lhe a mão no ombro; você às vezes finge-se má... aposto que, se eu expulsasse daqui o Robino, seu coração, minha irmã, sofria com isso mais CO que o dele próprio...

— Não digo o contrário, Sr. vigário, mas...

—Por que então há de fingir-se aquilo que não é?... por que há de dizer o que não sente?... por que fazer-se má, quando os seus sentimentos são humanos e compassivos?... Saiba, pois, que tanto se ofende a Deus com a falsa maldade, como com a verdadeira. Com a falsa ainda mais se ofende, porque a outra tem a sua absolvição na fatalidade dos instintos, ao passo que esta é toda produto do raciocínio, e como tal deve ser punida. Se Robino é um miserável, é um perdido, por isso mesmo devemos socorrê-lo; se não dispõe de ninguém por si, devo eu estar ao lado dele e, se eu também o abandonasse, ainda ficaria Deus, que não abandona nunca os desgraçados.

E prosseguiu, depois de uma pausa, deixando-se arrebatar no vôo do seu amoroso enlevo pelas cousas místicas:

— O santo missionário Francisco Xavier, quando percorreu a longa Índia com a sua esfarrapada sotaina, tocava uma campainha para atrair o povo, e entre este ia escolhendo os desgraçados de toda a espécie, para socorrê-los e dividir com eles a melhor parte do seu pão e do seu coração. Schwartz, Marshman, e quantos outros soldados de Jesus, afagaram toda a escala das misérias humanas, como se percorressem o doce teclado de um órgão, entoando hino de amor à Virgem Puríssima! Vicente de Paulo, reduzido à escravidão em Argel, humilhou-se de tal modo e com tamanha devoção, que acabou convertendo o seu herético senhor à fé católica. E mais tarde, em Marselha, ei-lo que desdenha a honrosa companhia do conde de Joigny, para ir coabitar com os galés, até chamá-los, a todos, um por um, ao caminho da moral e da religião de Cristo! Mas o próprio Cristo?... Não foi ele quem recolheu nos seus braços a pecadora das pecadores, a desgraçada repelida por todas as multidões? Não foi ele quem fez de Madalena o louro arcanjo da regeneração?... Não foi ele quem dela fez uma santa? Sim! Sim, Jesus, meu Mestre! toda a tua religião e toda a tua sabedoria se reduzem a esta palavra:—Amor!

E um longo suspiro saiu-lhe do fundo da alma.

Salomé, que do meio para o fim da divagação do presbítero se fora comovendo progressivamente dava agora repetidos soluços, limpando os olhos com ò avental.

— Perdoe-me!... gaguejou ela; perdoe-me, Sr. vigário!... Vossa reverendíssima tem toda a razão... Vossa reverendíssima é um santo... mas que quer?... Eu estava contrariada... Eu estou muito zangada! Tenho que ralhar!

— Por que, minha boa irmã?...

— Ora, porque! porque vossa reverendíssima pelo modo que vai, dá cabo de si!... Tem lá jeito! Levar até a estas horas com o estômago vazio, a andar por aí todo o santo dia, em risco de lhe acontecer como ao frei Ozéas!...

— E todavia não tenho fome...

— Mas há de sempre comer alguma cousa, senão é que me zango deveras!...

— Tenho é muito cansaço...

E assentou-se.

— Pudera não! Fazendo destas!... Isto até ofende a Deus!

E, de carreira, foi lá dentro em busca do que havia para cear.

Ângelo, mal se viu a sós, deixou pender a cabeça e pousou as mãos sobre os joelhos.

— Ah!... pensou ele. Como estou transformado, meu Deus! ... Como eu próprio me desconheço! ... Como sou miserável e fraco!... (E agarrando o peito, desesperado). Carne traiçoeira e maldita! de que lama és tu feita?... E não poder quebrar-te num instante, imundo barro sensual e pobre!

Mas Salomé voltava com a ceia.

— Ingrato! exclamou ela. Eu que lhe havia preparado uma sopa tão apetitosa! ... Vamos! Coma alguma cousa...

E enchendo-lhe o copo com o vinho que trouxe num cangirão:— Beba, Sr. vigário! beba um bom trago de vinho! Este ainda é da colheita do defunto padre René... Ah! o padre René!... Esse é que tinha sempre um apetite... que metia gosto vê-lo comer!... Comia tão bem o santo homem que, às vezes, vendo-o jantar, jantava segunda vez! Um dia pregou-me uma formidável indigestão!... Santa criatura!...

— Você o estima muito, não é verdade, tia Salomé?... perguntou Ângelo, tomando uma colherada de sopa.

— Como não?... Pois se o servi durante dezoito anos seguidos! ... Se não fosse a congestão que o raspou, ainda...

— A congestão?! interrompeu o vigário. Pois ele não morreu atacado pela peste?...

— Qual o que! negou a criada, rindo. Isso foi uma balela que se arranjou aqui em Monteli!... Os amigos dele entenderam que lhe não ficava bem, como sacerdote, morrer de congestão, havendo tanta peste na aldeia...

— Ah!

(continua...)

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