Por Aluísio Azevedo (1897)
— Palavras! e só palavras! Sinto que vou já resvalando para a cova, e que afinal rolarei por uma vez sem descobrir quem foi o infame que me amargurou os últimos anos de minha vida!
— Lá voltam as idéias tristes! observou Alfredo, com um gesto de reprovação. Conversemos noutra cousa. Veja se afasta do espírito semelhantes pensamentos...
O coronel continuou, sem fazer caso das palavras do genro:
— Pressinto debaixo dos pés a aridez pavorosa do meu próprio despojo... Já preciso olhar para trás, quando quero olhar para a vida. Sintome só e a solidão me aterra; procuro em torno de mim os afetos que me aqueceram e consolaram o coração noutros tempos mais felizes, e só vejo sombras, fugitivas e vaporosas... Onde estão meus rudes companheiros de trabalho?... onde estão meus amores da mocidade!... onde foram desabrochar os lírios que plantei no lar, contando com as amarguras da velhice!... Tudo falhou, tudo murchou, e tudo fugiu!...
E o coronel, possuído completamente do delírio da febre, levantouse do leito, com o seu longo vulto amortalhado no cobertor.
Alfredo acompanhavalhe os movimentos, piscando os olhos, com um ar de medo.
O coronel golpeou o quarto a passos largos e pesados.
Tinha a cabeça erguida, o olhar descomposto, a boca aberta, mostrando os dentes fulvos de tabaco. A fronte, larga e despojada, saíalhe de uma nuvem de cabelos brancos.
No seu porte, na sua fisionomia, no seu olhar de águia velha, havia uma trágica expressão de loucura.
Foi entre o fumo das batalhas, exclamou ele estacando ao fundo do aposento e fitando o genro, que formei o meu caráter e o meu coração! Foi entre o fuzilar da metralha e o clamor dos moribundos, que se escoou a minha mocidade, limpa e vermelha, como o sangue de um justo! Nunca a mentira me anuviou o olhar, nunca a vergonha me desmaiou as faces! Fui reto e valente! Mil vezes arrisquei a vida pela pátria, mil vezes mergulhei no fogo, abraçado ao pavilhão brasileiro! Entretanto, em paga de tudo isso, ela, a pátria, só me dá o esquecimento! E a sociedade, a grande sociedade! só me dá, de quinze em quinze dias, uma inventiva pelo Jornal do Comércio! Maldito sejas tu, Brasil ingrato! Fui intrépido, leal e generoso, contudo irei para o fundo da terra isolado e crivado de insultos, como se fosse um bandido!
E avançando para Alfredo, bradoulhe com uma voz terrível:
— Tu mesmo, desgraçado, não te lembrarias de fazerme esta visita, se te sentisses menos infeliz! Vieste cá pela simpatia do desespero; entraste, porque és velho conhecido da negra miséria que cá está. Sabias que aqui pelo menos, não te cuspiriam nas costas, não te bateriam no chapéu, nem te voltariam enjoados o rosto! porém fizeste mal em vir! eu vou perfeitamente só para a sepultura. Volta por onde vieste, miserável! que já há por cá bastante mágoa, bastante agonia, bastante sofrimento! Vai exibir noutra parte a tua mingua, que ela mais me apoquenta e me irrita! Sai!
E o coronel apontoulhe a porta:
— Anda! Sai!...
Alfredo obedeceu, de cabeça baixa; tomou o chapéu, e saiu humilde e silencioso, como um cão enxotado.
Mas, ao passar pela sala de jantar, chamou a criada, que dormia, e disselhe fosse ver o amo, que estava mal.
E, ao chegar à rua, abriu a soluçar, com uma grande aflição.
— Até este!... dizia ele; até este!... A moléstia fêlo ficar como os outros!
E assentouse à soleira de uma porta, para chorar mais à vontade.
Um pequeno que passava gritoulhe:
— Ó Marmelada!
XIV
DESCOBRESE O AUTOR DAS MOFINAS
As mofinas desde que se converteram para Melo Rosa em fonte de receita, tornaramse muito mais desabridas e aleivosas. Melo excedia à expectativa do comendador Moscoso.
O coronel, coitado! já não as lia, porque nesses últimos três anos quase não se levantava da cama. "Esperando pelo desfecho. .." dizia ele com indiferença.
Gaspar, a partir de então, não lhe abandonava mais a cabeceira e lhe prestava desveladamente o duplo serviço de médico e de enfermeiro. Mas o pobre velho sacudia os ombros, e pedialhe que saísse do caminho e não estivesse a contrariar a morte!
— É melhor deixar que isto acabe por uma vez! disselhe ele certa manhã, durante a qual Gaspar lhe pareceu mais sucumbido e triste. Tu, que és moço e devias ter esperanças tu, meu filho, atravessas a existência como um espectro! Como consentiste que a mulher, a quem dedicaste todo o teu amor e a melhor parte do teu coração, levasse consigo para sempre a alegria e os sorrisos da tua mocidade?... E queres exigir deste pobre velho a coragem que te falta! Não! renuncia a tal intento e reage contra a tua tristeza, procura viver, para que ao menos possa eu fechar os olhos, na doce ilusão de que o perseguidor de teu pai há de ser um dia punido por tuas mãos!
— Jurolhe, meu pai! jurolhe, por minha honra, que o senhor, ou a sua memória, serão vingados!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.