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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Duas conveniências os tinham levado a ajuntar-se novamente: Maurícia sacrificava-se pela filha; Bezerra, o que queria era um meio de vida e as perspectiva de um futuro melhor. Ao princípio, chegara a acreditar na possibilidade despertar no coração da mulher a afeição que, verdadeiramente falando, aí nunca existira. Mas as freqüentes recusas, objeções e lágrimas de Maurícia convenceram-no de que, se a primeira parte de sua esperança não estava longe de realizar-se, a última era de todo o ponto irrealizável. Esta convicção trouxe-lhe certo descontentamento, mas não o levou a considerar-se de todo infeliz. Tal momento houve em que pensou conseguir para o tempo adiante o que atualmente lhe parecia de difícil aquisição, a saber, a graça da mulher. Eram estas as idéias em que se deixava absorver, quando achou no caminho a carta escrita por Ângelo. Houve, então, uma revolução em seu interior, que ocasionou notável mudança no que ele trazia assentado no raciocínio. Nesse documento, viu não só a prova de um crime dela, mas, também, o testemunho irrefragável da desgraça dele. Teve ímpeto de meter uma bala na cabeça do homem, que armava ciladas à sua honra, e um punhal no coração da mulher que a não sabia guardar devidamente. O primeiro impulso foi considerar o dito por não dito, o feito por não feito, desaparecer dos olhos de Albuquerque e tratar de sua vingança, exclusivamente.

Pensava em tudo isto ao entrar na casa-grande. Deparando-se-lhe com

Virgínia, que o fora receber com afabilidade carinhosa, sentiu-se mais fraco ainda de que estava. Havia de dar um passo que redundasse na desgraça de sua filha? — “Não!” — tal foi a resposta que encontrou em si mesmo como revelação do sentimento que atualmente predominava em seu coração.

A primeira demonstração de Bezerra para sua mulher tanto que se viu a sós com ela, não foi de amor, mas de rigor. Maurícia, entretanto, nunca se mostrara tão formosa, posto que a tristeza íntima a devesse trazer abatida no exterior. Quando ela fugira da companhia do marido, estava magra, angulosa e feia.

Mas não foi o mesmo esqueleto, a mesma múmia egípcia o que ele veio achar em Pernambuco; foi sim, uma beleza adorável, que, pelo completo desenvolvimento, parecia ter tocado a meta das proporções que devem ter, no ponto mas elevado das suas graças, as belezas plásticas. Naquela noite trazia ela vestido de escumilha azul cor de céu, apanhado de arregaços das cavas para as ombreiras com tranças e brilhantinas.

— Não sei se sabe — disse-lhe ele, pegando-lhe da mão com certas mostras de autoridade ameaçadora, não sei se sabe que tenho em meu poder um terrível documento contra a senhora.

Maurícia, julgando reconhecer no semblante do marido, até àquela hora risonho, a expressão de arrogância, que lhe era habitual nos tempos em que vivera com ela, sentiu coar-lhe pelos membros o frio da morte.

— Contra mim o senhor não pode ter nenhum documento, nenhuma prova que mereça fé.

— Talvez não houvesse chegado às suas mãos o que eu tenho nas minhas; mas que ele faz grande prova contra a senhora, não há que duvidá-lo.

— Sei que alude a uma carta. Eu a tive em minhas mãos, mas a não cheguei a abrir. Joguei-a fora, sem a ler. A sua asseveração é, portanto, inexata.

— A senhora tem um apaixonado. Tratava de fugir com ele, e se o não fez, não foi porque lhe repugnasse esse passo, mas porque talvez compreendesse quanto ele era falso e perigoso.

— O homem que escreveu tal carta poderá amar-me, mas não é nada meu. Vi-o uma vez em casa e meu cunhado, e outra na povoação. E que culpa tenho eu de que ele escrevesse essa carta? Que mulher pode estar livre de que alguém lhe escreva? Mas o que me espanta em suas palavras é que o senhor as tenha tão cruas e desamorosas para mim depois de três anos de separação, depois de mil esforços empregados ultimamente para que tal separação cessasse.

Dizendo estas palavras, Maurícia soluçava.

— Espanta-se de que eu procure tomar-lhe contas? Não terei este direito? Não me pertence fazer uma interrogação ao passado? Vindo novamente para minha companhia, julgaria a senhora que continuava sem um juiz para os seus atos?

— O que eu julguei, acedendo aos votos da minha filha, por bem da sua felicidade, foi coisa diferente, e sempre o disse, porque nunca, depois de separada do senhor, me iludi jamais acerca dos seus sentimentos; o que eu suspeitava encontrar no senhor, vim encontrar por desgraça minha. Eu quisera ter diante de mim o juiz, severo embora; o que tenho é o mesmo inimigo, o mesmo carrasco dos meus primeiros anos de casada.

Maurícia quis levantar-se, mas Bezerra por um gesto de violência a reteve na cadeira que ela ocupava ao lado dele.

— É cedo ainda para se levantar, Maurícia - disse-lhe. Tenho algumas palavras que lhe dizer. É minha vontade que a senhora nunca mais veja esse homem.

— Quer, então, que eu não ponha mais os pés em casa de minha irmã?

— Quero-o, se for isto necessário para que a minha vontade se cumpra.

— Pois eu o farei. Hei de levar ao fim sem pesar o meu sacrifício.

— Não sou tão mau, como já fui - tornou Bezerra, tirando de um dos bolsos da calças um papel dobrado. Olhe. Aqui está a carta que lhe foi dirigida. Vou queimá-la para lhe ser agradável. Isto quer dizer que aceito sua justificação. Certo, nenhuma mulher está isenta de que algum insolente lhe dirija epístolas desonestas. Dou pela sua defesa. É um indulto que lhe quero conceder no meu segundo noivado.

Bezerra chegou a carta à vela que ardia dentro de um candelabro sobre a mesa no meio da sala e atirou-a inflamada no chão.

— Havia nesse papel palavras tão infames que nunca a senhora as devera saber; tão infames são elas que, se outrem as pudesse vir a ler, talvez fosse isso motivo para que eu me atirasse no caminho do crime, a fim de desafrontar-me. Façamos agora as pazes. Maurícia.

Bezerra conchegou a mulher com ambos os braços ao seu peito, e deu-lhe um beijo na boca. Quando retirou os lábios, trazia-os úmidos de lágrimas da infeliz.

(continua...)

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