Por Franklin Távora (1876)
— Trovão do diabo ! — exclamou o Mulatinho com indescritível expressão. — Não vês que é uma defunta.
Florinda estava na realidade morta.
— Resta me a outra.
— A outra ? Não vês que o Joaquim já a tem em seus braços ?
— Há de ser minha, custe o que custar — redargüiu o negro.
— A outra é minha — disse um terceiro a cuja voz estremeceram irresistivelmente os dois bandidos.
Era o Cabeleira.
CAPÍTULO IX
Profunda revolução se havia operado durante uma noite no íntimo do bandido.
Quando ele chegou ao couto, estava já resolvido o assalto à família de Liberato, a qual por se achar mais próxima do que qualquer outra, estava no caso de merecer as honras da prioridade na provação.
Cabeleira não deu mostras de que aprovava, ou reprovava semelhante resolução.
Seu animo, ordinariamente prestes para toda sorte de temeridades e investidas, mostrava se agora frio diante do assentado acometimento. Viração suavíssima passara por cima do férvido charco das suas paixões, e deixara, se não purificadas, decerto quietas as águas que aí se enovelavam turvas e lodosas. Essas águas nunca jamais viriam a ter a limpidez do regato que se desliza em manhã de verão, por cima de prateadas areias; podiam, porém, perder o lodo e os vermes que se geram e alimentam em pútridos pântanos; podiam tornar se mansas, como as dos lagos, azuis como as dos golfos.
A princípio os companheiros do bandido atribuíram o seu silêncio, a sua tristeza e a sua abstração aos ferimentos recebidos na luta.
Mas mudaram de opinião tanto que o viram pegar da viola, seu instrumento querido que, não só a ele, mas também a todos os do couto proporcionava, nas mãos do inspirado tocador' momentos de prazer e consolação.
Era de tarde. Os bandidos tomaram por uma vereda que ia ter à borda da grota aonde chegava levemente a aragem do tabuleiro, donde se descortinava o vasto sertão opresso e abrasado.
Aos sons da viola puseram se uns a cantar, outros a dançar, como brincam saltando as crianças nas campinas.
De repente Manuel Corisco fez sinal para que se calassem.
— Estou vendo ali embaixo um homem que vem na direção da grata — disse ele aos camaradas.
— Você não se engana, Manuel. Ele vem tomando chegada tão gacheiro e amedrontado, que não pode ser amigo nosso.
Os salteadores tinham razão, porque o desconhecido era Matias.
Um deles quis imediatamente estendê-lo por terra com um tiro do seu bacamarte. Assentaram porém ocultar se a fim de verem primeiramente o que pretendia.
Quando Matias desapareceu por um lado, segundo já dissemos, os malfeitores sumiram se pelo lado oposto, pé ante pé, na embocadura do profundo abismo.
Tinha o Cabeleira avançado já alguns passos após os companheiros, quando uma idéia súbita, atuando sobre sua vontade por modo irresistível, o fez sobressaltar se. Ele se lembrara de que se os companheiros conseguissem apoderar se do desconhecido, não o deixariam com vida. Mas o bandido sentia se naquele momento tão pouco disposto a contribuir para a morte de um homem que não pode acabar consigo que voltasse à beira da grota.
— Se eu quisesse, esse desconhecido não morreria — disse de si para si. — Mas não. Se não vou ajudar os outros a lhe tirarem a vida, também não o irei salvar.
O lodo tinha já desaparecido da superfície do charco imundo que ele trazia no coração; restava, porém, ainda no fundo, como se vê a vasa corruta e pestilencial.
Para que Matias declarasse o fim que o levava àquele ponto, preciso foi primeiro que o ligassem com cipós a um tronco, e batessem nele sem piedade. Suplício atroz e cobarde que o índio sofreu com estóica resignação característica de sua raça.
— Então dizes, ou não dizes a que vieste, Veado do inferno ? — perguntara Joaquim.
— Vim em procura daqueles que ali estão para os urubus comerem — respondera o velho.
— Até que enfim deste com a língua nos dentes.
— Quiseste primeiramente provar o cipó de rego.
— Mas não nos dirás quem foi que te mandou a isso ?
— Quem me mandou ! Tive pena daquelas mulheres que choravam por seus maridos, e larguei me a ver se os encontrava.
— Tiveste pena das mulheres, hein ? Maganão! Havemos de lá ir hoje de noite para também termos pena como tu tiveste.
— Elas não serão tolas que apareçam a qualquer que lá chegue — retorquiu Matias com segunda tenção.
— Mas a ti abriram elas a porta, velho mandingueiro.
— Para mim hão de ter sempre franca a sua casa, porque sabem que eu sou incapaz de as ofender.
— Então, se lá formos, não nos deixarão entrar ? — perguntou Joaquim.
Matias, depois de um momento de reflexão, respondeu:
— Só se forem comigo.
— Pois está dito. Iremos contigo — disse o Mulatinho.
— Mas tu irás amarrado, bem amarrado, jia de lagoa — acrescentou José Trovão.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.