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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

a tal comadre de uma figa, se não quer casar a filha é porque não quer-se desfazer daquele engodo, que lhe chama à casa os fregueses. Saindo a Margarida, adeus súcias e bebedeiras! adeus jogos e pandeiradas, em que os filhos-famílias vão atirar fora o dinheiro de seus pais... e é isso o que a ela não lhe faz conta.

— Lã isso também pode ser; mas o fito principal da patusca era filar-me o rapaz; isto ninguém me tira do sentido... até consta-me que o menino, depois que expressamente lhe proibimos pôr lá os pés, quando já todos aqui dormiam, fugia sorrateiramente da casa e lá ia passar quase todas as noites!... e que me diz a esta, heim, senhora?...

— Deveras, senhor Antunes!... o que me está dizendo?... homem!... veja que víbora traiçoeira admitíamos dentro de casa! Nada! nada! nem mais um momento quero ver essa mulher perto de nó.... é a serpente! é o diabo em pessoa!...

Assim, pois, ficou irrevogavelmente proferida a sentença de banimento das duas infelizes mulheres, sentença dura e injusta em todo o ponto, e que não tinha outra base mais do que a infundada prevenção dos dois fanáticos esposos. É verdade que Umbelina, como dona de uma pequena bodega à beira da estrada, tinha de tolerar sem remédio a reunião em sua casa de muita rapaziada vadia e turbulenta, que lá se agrupava por vezes aos domingos, e armava algazarras e rara vez algum pequeno distúrbio.

Um belo dia, pois, Umbelina e sua filha tiveram de arrumar a sua trouxa, e de dizer eterno adeus à sua linda casinha, ao risonho e pitoresco vale, ao córrego e às paineiras que por tantos anos tinham sido o abrigo e a companhia de sua feliz e pacífica existência.

Umbelina, por sua parte, de há muito desgostosa e disposta a abandonar aqueles lugares, não sentiu grande pesar em deixá-los; mas a pobre Margarida... essa aí deixava o coração feito em pedaços entre as garras da dor e da saudade. Triste sina era a sua! a sorte desapiedada lhe arrancava até a companhia daqueles sítios queridos, daqueles seres inanimados, que para os outros não tinham valor nem significação alguma, mas que para Margarida tinham uma alma com quem se entendia, uma voz consoladora que com ela conversava mistérios de amor e de saudade.

Quando viu sumirem-se por detrás das colinas a alva casinha, o vargedo, e os últimos topes das figueiras e das duas paineiras, pareceu-lhe que um véu de eterno luto se estendia sobre seu coração, e uma voz lúgubre lhe murmurava dentro da alma: — tudo está acabado!

Assim devia retirar-se Eva, expulsa do paraíso pela espada de fogo do arcanjo vingador, chorosa e a passos lentos, volvendo de quando em quando para o jardim de delícias, que acabava de perder, olhos empanados de lágrimas de indizível angústia. Assim devia retirar-se Eva, sim; porém talvez menos infeliz porque sentia na sua a destra do esposo, que a afagava, e lhe sustinha os passos vacilantes pelas tristonhas e escabrosas sendas do exílio.

Margarida porém, ai dela!... despedindo-se daquele éden saudoso da sua infância, dizia também eterno adeus ao bem querido de seu coração.

CAPÍTULO XVII

Grande é o poder do tempo.

O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar-se.

O físico de Eugênio, graças à mocidade e a uma feliz e sadia organização, tendo resistido aos rudes e continuados golpes de uma dor íntima, e intensa e corrosiva, o espírito como que fatigou-se de sofrer, ou antes habituou-se ao sofrimento.

Uma influência talvez ainda mais forte que o tempo, se bem que por ele auxiliada, contribuiu também grandemente para a salutar modificação que se operou na vida do mancebo. Sua natural tendência à devoção e ao misticismo, que nele constituía também uma paixão, há muito tempo abafada pelos pesares e inquietações de um amor infeliz, acordou finalmente no seio daquela alma ulcerada, e se não pôde acalmar de todo seus sofrimentos e tumultuosas agitações, veio pelo menos dar-lhes um caráter menos sombrio e desesperado.

Eugênio não pôde suportar por mais tempo a triste solidão em que gemia abraçado com a cruz de seu sofrimento. Não sabendo onde achar socorro e consolação para o mal que o flagelava, correu a prostrar-se aos pés do Crucificado, regou-os com suas lágrimas, e beijou-os cheio de contrição e de amor, implorandolhe que lhe acalmasse aquela febril agitação, que lhe queimava o cérebro, e lhe restituísse a paz do coração.

Desde então começou a sentir de novo aqueles celestes enlevos, que as solenidades religiosas outrora lhe despertavam na alma. No templo, aos sons do órgão sagrado e dos hinos religiosos, seu espírito se arrebatava entre as nuvens de incenso sobre as asas do êxtase e pairava pelo empíreo no meio de coros angélicos. O altar inundado de esplendores e de nuvens aromáticas lhe parecia o escabelo do trono de Deus, o único degrau seguro, por onde se pode subir ao conspecto do Altíssimo.

(continua...)

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