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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

A conjuntura era delicada e solene; a moça achava-se na difícil situação de uma prima-dona, que, precedida de uma grande reputação, faz a sua estréia perante um público exigente e ilustrado. Em tomo dela fazia-se profundo silêncio; as respirações estavam como que suspensas, ao passo que parecia ouvir-se o palpitar de todos os corações no ofego da expectação. Álvaro, apesar de conhecer já a excelência da voz de Elvira e sua maestria no canto, não deixava de mostrar-se inquieto e comovido. Elvira por sua parte pouco se importaria de cantar bem ou mal; desejaria até passar pela moça a mais feia, a mais desengraçada e a mais tola daquela reunião, contanto que a deixassem a um canto esquecida e sossegada. Dirse-ia que estava debaixo do império de algum terrível pressentimento. Mas Elvira amava a Álvaro, e grata ao delicado empenho, com que este, cheio de solicitude e entusiasmo, se esforçava por apresentá-la como um protótipo de beleza e de talento aos olhos daquela brilhante sociedade, para satisfazê-lo, e não desmentir a lisonjeira opinião, que propalara a respeito dela, desejava cantar o melhor que lhe fosse possível. Era ao triunfo de Álvaro que aspirava mais do que ao seu próprio.

Uma vez sentada ao piano, logo que seus dedos mimosos e flexíveis, pousando sobre o teclado, preludiaram alguns singelos acordes, a moça sentiu-se outra, revelando aos circunstantes maravilhados um novo e original aspecto de sua formosura. A fisionomia, cuja expressão habitual era toda modéstia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insólita; o busto admiravelmente cinzelado, ergueu-se altaneiro e majestoso; os olhos extáticos alçavam-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranqüila noite de luar, começaram de ofegar, túrgidos e agitados, como oceano encapelado; seu colo distendeu-se alvo e esbelto como o do cisne que se apresta a desprender os divinais gorjeios. Era o sopro da inspiração artística, que, roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa do belo, em intérprete inspirada das harmonias do céu. Ali sentia-se ela rainha sobre seu trono ideal; ali era Calíope sentada sobre a tripo de sagrada, avassalando o mundo ao som de enlevadoras e inefáveis harmonias. Das próprias inquietações e angústias da alma soube ela tirar alento e inspiração para vencer as dificuldades da árdua situação em que se achava empenhada. Banhou os lábios com as lágrimas do coração, e a voz lhe rompeu do peito com tão original e arrebatadora vibração, em modulações tão puras e suaves, tão repassadas de sublime melancolia, que mais de uma lágrima viu-se rolar pelas faces dos freqüentadores daquele templo dos prazeres, dos risos, e da frivolidade!

Elvira acabava de alcançar um triunfo colossal. Mal terminara o canto, o salão restrugiu entre os mais estrondosos aplausos, e parecia que vinha desabando ao ruído atordoador das palmas e dos vivas!

A fada de Álvaro é também uma sereia; — dizia o Dr. Geraldo a um dos cavalheiros, em cuja companhia já o vimos. — Resume tudo em si... que timbre de voz tão puro e tão suave; julguei-me arrebatado ao sétimo céu, ouvindo as harmonias dos coros angélicos.

— É uma consumada artista... no teatro faria esquecer a Malibran, e conquistaria reputação européia. Álvaro tem razão; uma criatura assim não pode ser uma mulher ordinária, e muito menos uma aventureira... A música dando o sinal para a quadrilha, interrompe a conversação ou não nô-la deixa ouvir.

— D. Elvira, — diz Álvaro dirigindo-se à sua protegida, que já se achava sentada ao pé de seu pai, — lembre-se, que me fez a honra de conceder-me esta quadrilha.

Elvira esforçou-se por sorrir e combater o terrível abatimento, que ao deixar o piano de novo se apoderara de seu espírito.

Tomou o braço de Álvaro, e ambos foram ocupar o seu lugar na quadrilha.

CAPÍTULO XIII

Agora os leitores já sabem, se é que há mais tempo não adivinharam, que a suposta Elvira não é mais do que a escrava Isaura, assim como Anselmo não passa do feitor Miguel, ambos os quais são já nossos conhecidos antigos. Como também sabem que Isaura não só era dotada de espírito superior, como também recebera a mais fina e esmerada educação, não lhe estranharam a distinção das maneiras, a elegância e elevação da linguagem, e outros dotes, que faziam com que essa escrava excepcional pudesse aparecer e mesmo brilhar no meio da mais luzida e aristocrática sociedade.

Foi a situação desesperada, em que via sua querida filha, que inspirou a Miguel o expediente extremo de uma fuga precipitada, exposta a mil azares e perigos. Lembrava-se ele com horror do miserando destino de que em iguais circunstâncias fora vítima a mãe de Isaura, e bem sabia que Leôncio, tão desalmado como o pai, e ainda mais corrupto e libertino, era capaz de excessos e atentados ainda maiores.

Tendo perdido a esperança de libertar a filha, entendeu que podia utilizar-se da soma, que para esse fim tinha agenciado, empregando-a em arrancar a pobre vitima das mãos do algoz, por qualquer meio que fosse.

Bem via que aos olhos do mundo tirar uma escrava da casa de seus senhores, e proteger-lhe a fuga, além de ser um crime, era um ato desairoso e indigno de um homem de bem; mas a escrava era uma filha idolatrada, e uma pérola de pureza, prestes a ser poluída ou esmagada pela mão de um senhor verdugo, e esta consideração o justificava aos olhos da própria consciência.

(continua...)

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