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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Porque Susana estava lá, sentada na relva junto ao tronco do coqueiro e inundada pelo clarão da lua que fazia realçar a sua formosura. Era uma moça que não tinha ainda vinte anos. Cabelos negros, ondeados e tão longos que lhe cairiam aos pés. Olhos grandes, pretos e cheios de fogo celeste. Tez morena e fina, lindíssimo e voluptuoso colo. Braços magníficos. Mimosa e delicada na cintura. Pequenas mãos, e quase tão pequenas como os pés.

Era verdadeiramente encantadora e perigosa.

Acabara de cantar, e descansava a guitarra a um lado, vendo chegar um mancebo que para ela corria.

– Susana!

– Vicente!

– Quem chegou aí? – perguntou uma velha que estava senta-da à porta da humilde casinha.

– É o primo Vicente, minha avó.

– Vejam lá! – disse a avó.

O mancebo correu a beijar a mão da velha, e voltou logo a sentar-se aos pés da moça.

– Estava cuidadosa – disse a moça. Hoje te demoraste muito.

– Tardei muito, Susana. Mas a culpa teve o bom padre-mestrefrei Veloso, que levou mais tempo do que costuma a dar-me a sua lição de botânica. Que excelente homem é aquele sábio franciscano! Professa a pobreza de sua ordem; mas a ninguém conheço mais rico de sabedoria e de virtudes. Como sabe animar os moços! Chegou hoje a dizer-me que espera ver-me em breve sentado entre os membros da Academia Científica do Rio de Janeiro, que foi, há sete anos, fundada sob os auspícios do vice-rei marquês de Lavradio.

– Também, não sei para que servem tantas instruções em gentepobre! – disse a velha da porta onde estava sentada. Eu nunca soube ler nem escrever e, contudo, tive sempre muito juízo, e tu, Susana, tu, a quem teu tio, o meu infeliz filho, o defunto padre João Peres, ensinou tanta coisa, nem por isso deixas de ter a cabeça cheia de lantejoulas.

– Ah! minha avó – respondeu a moça sorrindo – é porque otio padre nunca pôde conseguir fazer-me aprender o seu latim, como desejava: foi só o que me faltou para ficar ajuizada.

– E o teu emprego, Vicente? – perguntou a velha.

– Minha avó, canso de esperar e nada consigo. Procurei obterum que vagara na alfândega e o deram ao filho de um desembargador. Outros dois que requeri, um no hospital militar e o segundo nas obras que se estão executando na cidade, foram dados a quem deles menos precisava.

– Isso é mau, Vicente. É mau, porque eu tenho já noventaanos e não posso ir muito adiante; e, morta eu, quem protegerá Susana, moça e solteira, como está? Vicente, é preciso cuidar em ter um emprego e em casar com tua prima.

Vicente beijou a mão de Susana que entre as suas apertava, e Valentim sentiu que o vice-rei estremecera e sufocara um gemido.

– Minha avó – disse Vicente – eu irei amanhã pedir a frei Ve-loso para tomar-me debaixo da sua proteção.

– Em teu lugar, primo – acudiu Susana – em vez de ir ter comfrei Veloso, eu me dirigiria pessoalmente ao vice-rei.

– Ao vice-rei! – balbuciou o mancebo.

– Sim. Então, que mal havia nisso?

Vicente começava a turvar-se. Susana ou não deu por isso, ou quis provocar o namorado.

– O vice-rei Luís de Vasconcelos é bom e compassivo.

– Achas?

– Todos o dizem.

– E tu, Susana?

– Também me parece.

– Por quê?...

– Porque no seu rosto lê-se a generosidade e a grandeza d’alma.

Mestre Valentim sorria. O vice-rei escutava comovido. Vicente, agitado, começava a esquecer a presença de sua avó.

– Tens continuado a ver o vice-rei, Susana?

– Ainda hoje.

– E ele a ti?

– Como eu a ele.

– E o vice-rei olhou para ti?

– Por que não?

– Susana! Susana! É horrível! Mas devo dizê-lo... eu vou perder-te. O vice-rei ama-te!

Luís de Vasconcelos fez um movimento de cólera e despeito, ao mesmo tempo que a velha e a moça exclamaram:

– Vicente!

– Juro que disse a verdade – continuou o mancebo, tremendo.Não é de hoje que o sei, e hoje, como em outros muitos dias, impelido pelo meu ciúme, acompanhei de longe o vice-rei e vi a atenção e o enlevo com que ele te devorava com os olhos: Susana! Susana! Não há luta possível entre Luís de Vasconcelos e Vicente Peres. O vice-rei te ama. Tudo está perdido para nós ambos, porque eu terei de ser esmagado, e tu...

Susana cortou-lhe a frase, cerrando-lhe os lábios com a sua mão delicada e leve.

– Não sejas mau, Vicente. Tu calunias o vice-rei, supondo-oum sedutor, e me injurias também, julgando-me capaz de sacrificar-te a ele. É verdade: o Sr. Luís de Vasconcelos passa muitas vezes por este sítio, olha-me com atenção e acha-me talvez bonita; mas, graças a Deus, não pensa, nem pensará em fazer-me infeliz.

– Tu o defendes?

– Certamente. Não sei por que, mas eu o estimo. Seu rostome inspira confiança. Há nele uma expressão de honestidade e nobreza que não engana.

– Oh! isto é demais!

– Tu te exasperas, primo! Quanto mais quando souberes queeu sonhei esta noite com o vice-rei...

– Susana!

(continua...)

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