Por José de Alencar (1872)
XVIII
A visão
Sentara-se Berta na soleira da porta da cozinha, e com a vergôntea que partira do galho seco de um marmeleiro, traçava letras no chão do quintal.
Eram iniciais de nomes, que ela tinha no coração ou na memória; e naquele momento de cisma lhe acudiam de envolta com as recordações de sua modesta existência, à qual estavam entrelaçadas.
De instante a instante, voltava o rosto para observar Zana, que já completamente alheia e despercebida de sua presença, continuava a menear a cabeça com a mesma incompreensível surdina; ou arrancava da taipa um torrão de barro, que mastigava com avidez.
Nessas ocasiões fitava Berta os olhos em uma réstia de sol, que, penetrando pela fresta praticada no alto da parede exterior, cortava obliquamente o aposento com uma faixa de luz. O raio esbatido na taipa do fundo se inclinava gradualmente com a elevação do sol no horizonte, e descia vertical sobre o canto onde se acocorava habitualmente a louca.
A folhada crepitou com um estalido cadente, que indicava passo de homem ou animal a caminhar por entre o matagal que cercava as ruínas e ameaçava afogá-las sob a basta ramada.
Olhava a menina assustada para o lado de onde viera o rumor, quando na balsa fronteira lobrigou um vulto pardo que resvalava por detrás do tapigo, e cujo ofego sussurrava entre as folhas.
Ligeira escondeu-se Berta na cozinha, e por uma fenda que havia no aposento próximo, outrora dispensa, espreitou o circuito. Mas um incidente a distraiu desse propósito, chamando sua atenção para o interior.
A réstia de sol, descendo, batera na cabeça de Zana, que se ergueu esfregando os olhos, e aproximou-se do fogão. Agachada em frente ao bueiro, começou a soprar, como se houvesse ali nas grelhas algum brasido coberto pelo borralho; entretanto o tijolo gretado, que servia de lareira, já não conservava nem restos de cinzas.
Depois de algum tempo empregado na quimérica operação de acender um fogo ausente, a louca foi à prateleira buscar uns cacos de telha, que se lhe afiguravam panelas ou frigideiras; e fez menção de lavar o trem de cozinha, para preparar a comida.
Em meio dessa ocupação, de chofre voltou ela a cabeça, aplicando o ouvido, à guisa de quem escuta um chamado, e para acudir arrancou do peito um grito áspero e gutural:
- Inhá!...
Imediatamente deixou o fogão, depois de por os testos às panelas, e dirigiu-se pelo corredor à sala da frente, donde passou à alcova próxima. Não havia aí ninguém; as paredes esboroavam-se; o teto de fasquias de taquara caía aos pedaços, e as tábuas do soalho rangiam sobre os barrotes carcomidos.
Zana tinha parado junto à porta, em atitude de escutar outra pessoa, que por ventura ali estivesse a falar-lhe. Os gestos rudes, mas expressivos; os esgares vivos e rápidos, que lhe cambiavam a móbil fisionomia, indício eram das impressões encontradas que abalavam esse espírito embotado.
Seguira Berta com ansiosa atenção os passos da louca, decorando seus menores movimentos e observando-lhe amiúde a expressão do rosto. Cosida a ela como a sombra ao corpo, roçando-a muitas vezes a seu pesar, ou bafejando-lhe o rosto com o hálito, quando acaso se inclinava para espiar-lhe o semblante, nem assim Zana dava fé de sua presença.
Desde algum tempo, em uma de suas visitas, reparou Berta na singular mímica da doida, e de princípio não viu nisso mais do que um efeito natural da loucura. Mais tarde, porém, notando a insistência com que a negra repetia os mesmos movimentos, e ordem em que eles se sucediam, suspeitou a menina um mistério.
Não seria essa pantomima a representação muda de uma cena que ali, naquela casa em ruínas, passara outrora, e abalara a alma da negra a ponto de a subverter e alucinar?
Assim como dizem que a pupila conserva a imagem da última visão, não sucederá o mesmo com o espírito, e não ficará nele gravado, como em estereótipo, o quadro que iluminaram os últimos clarões da razão extinta?
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.