Por José de Alencar (1872)
- Conheço-a melhor do que tu, pela razão do provérbio “que nos olhos dos outros vê-se o argueiro, e não se enxerga no nosso o cavaleiro”. Bem sei que esses intrusos de que falo muitas vezes, não só obtêm a tolerância, como se tornam necessários; tocam quadrilhas, fazem dançar as feias, ou exaltam as virtudes dos donos da casa. São os criados de galão amarelo dos ricaços e banqueiros, ou um móvel de palácio, necessário à comodidade e ao bem-estar, como um sofá de estofo, um tapete aveludado, uma cadeira de balanço. Um traste, bem vês, que não tem consciência do papel que representa; sai dali o tocador de quadrilhas, por exemplo, acreditando que é um amigo da casa, e dos mais estimados.
- Se todos pensassem como tu, não haveria sociedade possível.
- Se todos pensassem como eu, a sociedade não seria o que é hoje, uma floresta negra, onde o salteador de luva de pelica assalta o homem honesto; onde o assassinato e o roubo tomam tantas vezes o nome de casamento por amor e de aliança por amizade.
Já se vê pois quanto era difícil a missão de que estava incumbido o Guimarães. Segundo todas as probabilidades, o filho do procurador não escaparia naquele domingo ao recrutamento a que Guida o condenara no caso de não apresentar substituto idôneo. Tinha de sentar praça de cavaleiro servente de Mrs. Trowshy, pelo resto do dia.
Para destruir os escrúpulos porventura exagerados de Ricardo, e demovê-lo de sua primeira resolução, fora preciso um espírito hábil e atilado, que sondasse os motivos de sua recusa e os abalasse. Ora, o Guimarães era a mais positiva denegação dessas qualidades; só tinha viveza para as frioleiras; incapaz de sentir, como de compreender as nobres suscetibilidades da alma do colega, nunca poderia desvanecer-lhe a repugnância.
Ao contrário, nenhum tipo tão próprio para arredar cada vez mais o jovem advogado da casa do Soares! O enfatuamento da riqueza, a impertinência do herdeiro a quem a vida do pai retarda o gozo da legítima, a ambigüidade dessa posição no meio de um passado de dívidas e de um futuro de dissipação faziam daquele moço o contraste vivo de quanto há de delicado no coração e de sensato no espírito.
A presença, a simples presença daquele boneco, a torcer constantemente o bigodinho, e a mirar-se todo em si mesmo, quando não encontrava um espelho, produzia em um homem sério o efeito de uma lixa moral: eriçava a epiderme d’alma. Essa fora a impressão que pela manhã, na ocasião do passeio, o Guimarães deixara no ânimo do colega, apesar de trocarem apenas algumas palavras.
Guida, pois, tinha errado. Querendo apressar a apresentação de Ricardo, talvez a tivesse impedido. Se o Guimarães não fosse à procura do moço, porventura um concurso de circunstâncias levaria o jovem advogado à casa do comendador. Entretanto, agora, quem sabe se a situação não se agravou, e a dificuldade mudou-se em
impossibilidade? a moça não podia prever todos os escrúpulos de Ricardo; supunha que o obstáculo provinha apenas de uma questão de forma. Entretanto, cumpre confessá-lo, não tinha ela plena confiança na intervenção do Guimarães; o que até então lhe parecera tão usual, uma simples apresentação, agora se afigurava a seu espírito como um acontecimento, e quase tomava as proporções de um lance dramático.
O Dr. Nogueira, sentando-se perto dela, tomara sobre a mesa um álbum de paisagens da Suíça.
- Não tem vontade de passear à Europa, D. Guida? disse ele folheando o álbum.
- Muita; por meu gosto já teria ido; mas papai prometeu-me que nestes três anos me levaria.
- Há de ir antes, disse uma senhora sorrindo.
- É verdade! Acudiu outra que tinha compreendido a malícia da observação. E sem o comendador!
O futuro deputado abaixara a cabeça, e parecia completamente absorvido em ver as estampas. Recordava-se do incidente da flor, e não queria provocar segundo motejo, quando procurava apagar a impressão do primeiro.
- Não entendo! dissera Guida fitando seu límpido olhar no semblante da senhora.
- Casando-se, Guida. Agora é moda; as moças que podem vão passar a lua-de-mel em Paris.
- É bem possível que me case antes de três anos, D. Guilhermina; mas asseguro-lhe que não me lembro disso. Guida pronunciou estas palavras com a maior calma. As contínuas alusões a esse assunto, banalidades com que de ordinário se entretêm as moças, a tinham habituado. Longe de corar ou perturbar-se, como aquelas que sofrem desse fraco, ficava tão serena como se lhe falassem do baile que havia de festejar os seus dezoito anos.
- Altdorf!... disse o Dr. Nogueira em meio solilóquio observando a vista da cidade suíça. É a pátria do libertador: de Guilherme Tell!
Guida lançara os olhos à estampa.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.