Por José de Alencar (1875)
— Ah! E que responderam?
— Se êles ignoram as regras da cortesia… No que afinal têm desculpa, pois nunca foram à Côrte, nem ao menos ao Recife. Portaram-se como dois vilões. O que êles queriam, bem adivinhava eu; era apanharem-me descuidado e torcerem-me o gasnete. Mas eu transtornei-lhes o plano.
— Vamos a ver a façanha.
— Não foi nenhuma, sr. capitão-mór; manha sim, houve alguma. Um dia que o macho saíu à carniça mais longe, lá para as bandas do Quixeramobim, aproveitei a ocasião, e fui visitar a moça que tinha ficado na furna deitada com os dois cachorrinhos.
— Entraste na furna, rapaz?
— Pois não havia de fazer as minhas cortesias à dona? Já se sabe, fui no rigor: bem encourado, com o pelego enrolado no braço esquerdo, e a minha faca flamenga à mostra.
— E a cuja como te recebeu?
— Com toda a bizarria, lá isso não se pode negar. Assim que me viu, rangeu os dentes, levantou-se a prumo sôbre os quadrís, e estendeu a munheca, talvez para dar-me um apêrto de mão. Eu, que sou desconfiado, fui metendo-lhe um palmo de ferro entre as costelas, com o que a bicha deu-se por satisfeita.
— Mataste-a?
— Era minha intenção. Mas quando eu ouví os cachorrinhos a grunhirem como se estivessem chorando, e reparei nos olhos que lhes deitava de longe a onça estendida no chão; lembrei-me que ela era mãe e ia deixar os filhinhos ao desamparo. Então não sei o que se passou cá em mim, que tirei leite da janaúba, curei a ferida e fui buscar água na cacimba para dar-lhe a beber e aos cachorrinhos.
— Bem mostras que és um bom filho, Arnaldo, e nem podia ser d’outra sorte com a mãe que Deus te deu. Mas vamos ao resto da história, que está curiosa.
— Mal tinha acabado de agasalhar a dona, aí chega o marido.
— Devias esperar por êle.
— Não difo que não; mas o tal, ou vinha arrenegado da vida, ou era de gênio arrebatado, pois não quis saber de explicação: foi juntando e pinchou-se-me em cima com uma gana de três dias. Espetou-se na ponta da faca; mas não se contentou com uma sangria; foi só à terceira, que emborcou no chão e toca a estrebuchar.
— Estou vendo que também não o mataste, e que não é outra senão a tal e ainda agora.
Arnaldo sorriu, mas a expressão jovial que animou-lhe a fisionomia retocou-se de um laivo melancólico.
— Não sei o que é viverem duas criaturas da mesma vida e unirem-se para sempre; nem o saberei nunca.
— Por que não o hás de saber, Arnaldo? Para que tenho criado em minha casa, como filha, a Alina, senão para dar-te nela uma boa mulher, como tu a mereces? Justa ainda não te disse?
— Morrerei só, como tenho vivido, replicou o mancebo com vivacidade. Mas isso não impede que eu sinta quanto há de ser triste ver-se uma criatura desamparada do seu companheiro, daquele que a defende e a proteje. Foi o que eu sentí, naquela ocasião: os filhos a grunhirem outra vez; a mãe a gemer; êle a arquejar que me cortava o coração; e no meio de tudo uns quebrados de olhos tão ternos que ninguém diria fossem daquela ralé carniceira. Afinal de contas, eis-me feito cirurgião e enfermeiro dos feridos e criador dos cachorrinhos.
— Aí está o segrêdo.
— Durante um mês, todos os dias era meu divertimento curar os meus enfermos, e levarlhes água e a comida, sobretudo peixe, de que êles gostam muito, e não faz má dieta.
— E acabaram por ficar amigos?
— Amigos não, camaradas. Êles sabem que eu não os temo, e que também não lhes quero mal; por isso me respeitam. Uma vez, porém, íamos brigando.
— Ah! isso é que estava para perguntar-te: pois sempre tive êsse animal na conta do mais traiçoeiro que se cria nas matas, com exceção da cobra.
— No fim da sêca passada, um dia que faltou-lhes a carniça e a fome apertou, tiraram-se de seus cuidados e fizeram as contas ao meu Corisco.
— E então?
— Ficaram com a água na bôca e as boas lambadas de relho, que metí-lhes no costado.
— Deste-lhes de relho? E êles aguentaram, como um sendeiro, sem respingar nem tugir? Então não admira que se deixem puxar pela orelha, como há pouco.
— Não deixaram de resmungar seu tanto; mas lembraram-se do que lhes tinha acontecido, e preferiram o couro ao ferro, no que mostram bem a casta que são. Desde aí é aquela mansidão que o sr. capitão-mór viu.
— Ora está a coisa explicada, sem milagres, nem feitiçarias. Ao cabo tudo vem dar nisto: que és um bravo, Arnaldo, valente como as armas!
— Valentia é a do se. capitão-mór que enxotou dez homens armados só com um chiqueirador.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.