Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Como pretenderam realizar a sua vingança e o fim que tiveram, já sabemos; os dois selvagens dormiam para sempre nas margens do Paquequer, sem que uma mão amiga lhes viesse dar sepultura. 

Agora é fácil conhecer a razão por que Peri perseguia a índia, resto da infeliz família sabia que ela ia direito ter com seus irmãos, e que à primeira palavra que proferisse, toda a tribo se levantaria como um só homem para vingar a morte do seu cacique e a perda da mais bela filha dos Aimorés. 

Ora, o índio conhecia a ferocidade desse povo sem pátria e sem religião, que se alimentava de carne humana e vivia como feras, no chão e pelas grutas e cavernas; estremecia só com a idéia de que pudesse vir assaltar a casa de D. Antônio de Mariz. 

Era preciso pois exterminar toda a família e não deixar nem um vestígio de sua passagem. 

Fazendo estas reflexões, Peri tinha gasto perto de uma hora a percorrer a floresta inutilmente; a índia ganhara um grande avanço durante o tempo em que ele lutava contra o desfalecimento produzido pela ferida. Por fim julgou que o mais prudente era avisar a D. Antônio imediatamente, a fim de que tomasse todas as medidas de prevenção que exigia a iminência do perigo. 

Tinha chegado a um campo coberto por algumas moitas de carrascos, que se destacavam aqui e ali sobre um capim áspero e queimado pelo sol. 

Apenas o índio deu alguns passos para atravessar o campo, parou fazendo um gesto de surpresa; diante dele arquejava um cãozinho, que reconheceu pela coleira de frutos escarlates que tinha ao pescoço. 

Era o mesmo que há dois dias encontrara na floresta, e que naturalmente seguia a índia no momento em que ela fugia; o índio não o tinha visto por causa das guaximas. 

O animal mostrava ter sido estrangulado por uma torção tão violenta, que lhe partira a coluna vertebral; entretanto ainda agonizava. 

Do primeiro lanço de olhos Peri tinha visto tudo isto, e calculado o que se havia passado. 

Aquela morte, pensava ele, não podia ter sido feita senão por uma criatura humana; qualquer outro animal usaria dos dentes ou das garras, e deixaria traços de ferimento. 

O cão pertencia à índia; fora ela pois quem o havia estrangulado há bem poucos momentos, porque a fratura do pescoço era de natureza a produzir a morte quase imediatamente. 

Mas por que motivo tinha feito essa barbaridade?— Porque, respondia o espírito do índio, ela sabia que era perseguida, e o cão que a não podia acompanhar serviria para denunciá-la. 

Apenas formulou este pensamento, Peri deitou-se e auscultou o seio da terra por muito tempo; duas vezes ergueu a cabeça julgando iludir-se, e encostou de novo o ouvido ao chão. 

Quando levantou-se, o seu rosto exprimia grande surpresa e admiração; tinha ouvido alguma coisa de que parecia duvidar ainda, como se os seus sentidos o iludissem. 

Caminhou para o lado do nascente, auscultando a terra a cada momento, e assim chegou a alguns passos de uma grande touça de cardos que se elevava numa baixa do terreno. 

Então colocando-se de encontro ao vento, aproximou-se com toda cautela e ouviu um murmúrio de vozes confusas, e o som de um instrumento que cavava a terra. 

Peri aplicou o ouvido e procurou ver o que se passava além, mas era impossível; nem uma aberta, nem uma fresta davam passagem ao som ou ao olhar. 

Só quem tem viajado nos sertões e visto esses cardos gigantes, cujas largas palmas crivadas de espinhos se entrelaçam estreitamente formando uma alta muralha de alguns pés de grossura, poderá fazer idéia da barreira impenetrável que cercava por todos os lados as pessoas cuja voz Peri ouvia sem distinguir as palavras. 

Entretanto esses homens deviam ter ai entrado por alguma parte; e não podia ser senão pelo galho de uma árvore seca que se estendia sobre os cardos, e ao qual se enroscava um cipó nodoso e forte como uma vide. 

Peri estudava a posição, e tratava de descobrir o meio de saber o que se passava atrás daquelas árvores, quando uma voz que julgou reconhecer exclamou: 

— Per Dio! ei-la! 

O índio estremeceu ouvindo esta voz, e resolveu a todo o custo conhecer o que faziam aqueles homens; pressentiu que havia ali um perigo a conjurar, e um inimigo a combater. Inimigo talvez mais terrível do que os Aimorés, porque se estes eram feras, aquele podia ser a serpente escondida entre as folhas e a relva. 

Assim esqueceu tudo, e o seu pensamento concentrou-se numa única idéia, ouvir o que aqueles homens diziam. 

Mas por que meio? 

Era o que Peri procurava: tinha rodeado a touça aplicando o ouvido, e pareceu-lhe que em um lugar o ruído das vozes e do ferro que continuava a cavar, lhe chegava mais distinto. 

O índio abaixou os olhos, que brilhavam de contentamento. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3031323334...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →