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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Cautela, senhor ouvidor! Veja o que faz!... 

O Dr. Pedro de Mustre cresceu para o padre, e calcou-lhe a manopla no ombro: 

— O reverendo já fez as suas três admoestações; agora quero eu fazer-lhe uma, uma só e que não tem nada de canônica. Suma-se e não me esgote a paciência. 

Não recalcitrou o Padre Rafael Cardoso, que só ao transpor o limiar da porta sentiu dissiparse o calafrio que produzira nele o olhar do ouvidor. 

Ficou em segredo essa ocorrência, da qual não transpirou nova na cidade. Por sua parte o ouvidor acreditando que a tal notificação não passava de uma ameaça para meter-lhe medo, persistiu em não tomar ao sério a empáfia do prelado, e a ninguém falou do caso, que ele tinha como não sucedido. 

Quanto ao prelado e sua roda, como esperassem reduzir o magistrado a abrir mão da devassa, assentaram que não era prudente metê-lo em brio com a divulgação do fato, o que tornaria indispensável a excomunhão. Embora resolvido a não recuar da grave censura, quando a necessidade o exigisse, entendia o prelado que não devia levar o ouvidor a tal extremo, tendo por mais prudente prevenir do que punir. 

Assim decorreu o tríduo da notificação e veio o dia de finados que esse ano caiu em domingo. Durante esse tempo preparou-se o Dr. Pedro de Mustre para a viagem do Espírito Santo, fixando sua partida precisamente para a segunda-feira. 

Já o galeão, que o governador pusera à disposição do presidente da comarca para transportálo em sua correição, estava sobre amarra, defronte do Rossio do Carmo, aprestado para a viagem e só esperava o magistrado para levar d’âncora e fazer-se ao mar. 

A viagem do ouvidor era naquela época fato importante, e pois servia de tema à parlice das calçadas e boticas. Sucedeu que ouvindo falar da próxima partida do Dr. Pedro de Mustre, a qual estava para a madrugada seguinte, o Padre Rafael Cardoso soltou uma risadinha sarcástica. 

— Vê-lo-emos! 

— Cuida V. Rev.ma que não se partirá o ouvidor? 

— Não sei, tornou o padre, metendo-se na concha. Se nesta terra, onde tudo anda em bolandas, se consente comércio com excomungados!... 

— Mas então?... 

Rompera essa exclamação do pasmo que deixaram na roda as palavras encobertas do padre. 

— Deus lhes dê as boas-noites, disse o reverendo embrulhando-se na capa; e sem mais abalou. 

Derramou-se imediatamente pela cidade o boato assustador de que o Dr. Pedro de Mustre ia ser excomungado pelo prelado, se àquela hora da noite, sete dadas, já não estava. Uns recebiam a nova persignando-se; outros volviam os olhos em torno, como se receassem o contacto do réprobo; e por toda a parte o rebate ia assoprando no ânimo da população o terror e o assombro. 

Não foi Ivo dos últimos a saber da novidade; e atinando com a razão do conflito armado entre o prelado e o ouvidor, sem mais detença tomou seu partido. 

Imediatamente deitou-se para o Beco do Cotovelo; mas em vez de buscar a casa bateu à rótula da tia Pôncia: 

— Quem é? perguntou a regateira acudindo ao bater. 

— Sou eu, tia Pôncia, não me conhece? 

— Ah! o enjeitadinho?... Ora, esta minha língua escorrega, que é um Deus nos acuda. Mas não foi por mal, menino. E para bem dizer não é crime ser enjeitado, ainda que... Está bem, isto agora não vem ao caso. Então, menino, que bom vento o trouxe por cá? É grande novidade?

— Pois não sabe o que vai pela cidade? 

— Eu?... Sou lá alguma abelhuda mexeriqueira para andar metendo o nariz por toda a parte! Mas visto isso, sucedeu alguma cousa? O que é, menino? Ande, não se faça de rogado! Diga de uma feita! 

— Ora, faça-se de novas? Então ainda lhe não soou que o prelado ia excomungar o ouvidor? 

— Abrenuntio!... Credo! Quem se pode julgar seguro quando a gente grande leva dessas!... Mas é que alguma ele fez, o tal doutoraço, que também não é lá boa rês. Eu desde que vi aquele toutiço de frade, que lhe tirei as inquirições.  

— O ouvidor não fez nada de mais, tia Pôncia. O prelado, ou lá sua gente, que eu não duvido fosse ele mesmo, começou à desinquietar a família do tabelião, e como este não esteve pela graça, deram-lhe uma assuada. Era o caso de devassa, e o Dr. Pedro de Mustre por queixa do Sebastião Ferreira, tratou logo de tirá-la, como tinha de obrigação. Daí vem tudo. 

— O caso é este?... disse a velha piscando os olhinhos. Pois, menino, adeus, que tenho mais em que cuidar. 

Fechou a Pôncia a rótula; mas poucos instantes decorridos, o Ivo oculto numa esquina a viu sair à sorrelfa embrulhada na mantilha e enfiar rua acima a trote batido. Era o que ele esperava. 

(continua...)

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