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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Em vez dele, como por encanto ainda, como por um novo sonho, a despeito da vontade de Celina, que estimava talvez admirar de novo no lindo mancebo de cabelos negros e ondeados, e olhos pretos e brilhantes... em vez dele... se foi erguendo à margem do lago um túmulo sem pompa, cuja única inscrição eram três letras – P. A. – e um C. –, e junto desse túmulo, que era em tudo semelhante ao que ela vira no dia de finados erguido à memória de seus pais, estava rezando ajoelhado um mancebo pálido e melancólico, que lhe estendia a mão e a convidava para ir rezar com ele...

Esse mancebo tinha o rosto do filho adotivo da velha Irias...

Celina esteve muito tempo embevecida como contemplando essa nova aparição...

Pareceu-lhe enfim notar que o mancebo a olhava com vistas tão ardentes... tão fascinadoras que penetravam até o fundo de sua alma, que a faziam estremecer toda, e lhe lançavam no coração um desassossego indizível: teve medo... e sentando-se no leito, soltou um pequeno grito.

Receou depois ter despertado sua tia: escutou... ela ressonava brandamente.

Celina passou então a mão pela fronte, e sentiu que estava em fogo. Parecia que um calor abrasante a sufocava. Ergueu-se, e envolvendo-se em leves vestidos, dirigiu-se à janela, abriu a vidraça, e... ficou meditando.

Por que é que sua imaginação transformara a última, a mais bela cena de seu querido sonho, em uma cena tão solene e melancólica? e por que principalmente em vez do mancebo de cabelos e olhos negros, lhe mostrava agora Cândido, tão pálido, tão triste?

Por que é que Cândido a. olhava de um modo tão singular, e por que tremia ela mesma à força desse olhar, e sentia no coração esse desassossego tão grande?... Como é que os olhos do homem podem ter influência sobre o coração de uma moça?...

Celina fazia essas perguntas a si mesma, e depois procurava lembrar-se do que em realidade sucedia entre ela e esse mancebo. Cândido estava sempre afastado dela quando vinha ao “Céu cor-de-rosa”; quase nunca lhe dirigia a palavra; jamais, se alguma vez lhe falava, atrevia-se a erguer os olhos até seu rosto; mas às vezes também Celina olhando de repente para ele, o encontrava devorando-a com vistas ardentes e magnéticas, com olhares que a faziam estremecer e ficar desassossegada.

Por que era que acontecia tudo isso?...

A “Bela Órfã” começou depois a observar-se a si mesma, a estudar o que se passava dentro dela, e principiou pouco a pouco a decifrar um grande mistério.

A primeira vez que encontrara esse mancebo, encontrara-o em uma posição caridosa, e em uma ocasião solene. De joelhos, junto ao túmulo de seus pais. Orava de certo por eles já mortos, e talvez por sua filha ainda viva. Naturalmente encontro de semelhante gênero produziu viva e profunda impressão em seu ânimo, e nunca mais se poderá apagar nele a imagem dessa triste, mas consoladora cena. Celina sentira, desde o primeiro momento, gratidão imensa pelo procedimento de Cândido.

A velha Irias e o mancebo tinham vindo no dia seguinte agradecer-lhe um pequeno serviço, que ela lhes havia prestado no anterior. Durante a visita pudera examinar o jovem, a quem era agradecida; e seu rosto pálido, mas expressivo, sua melancolia tocante, suas maneiras urbanas e modestas, atraíram sua atenção, e ao muito, pode ser que também a sua simpatia.

Mas Celina tinha ouvido dizer que o mancebo habitava no sótão do “Purgatório-trigueiro”, e desde então nunca mais passeou no seu jardim à hora primeira do dia, com a mesma ligeireza de vestidos, e de modos como dantes. Debalde, porém, olhava para a janela do sótão... jamais lhe aparecera o rosto pálido de Cândido.

Depois o mancebo começou a freqüentar o Céu cor-de-rosa”; e aquela sua habitual melancolia, aquele seu passar de horas inteiras afastado de todos, alheio aos prazeres, sempre triste ou abatido, como se fora consumido por um intenso e acerbo pesar, e aqueles olhares de fogo, que de relance dardejava sobre Celina, a faziam perguntar a si mesma: “por que ele está sempre triste?... por que motivo me olha de modo tão singular?...”

É incontroverso que o coração das moças chega ao amor subindo ordinariamente por uma escadinha, cujo primeiro degrau se chama curiosidade. Aqui houve em parte uma modificação dessa regra. Porque se acaso Celina ama a Cândido, o primeiro degrau da escadinha deve chamar-se – gratidão – e o segundo, então, curiosidade.

Nesse estado dos acontecimentos, e do que dentro dela se passara e se estava passando, Celina lembrou-se ainda que nas noites de serão, em que Cândido se demorava em aparecer, ela se achava descontente, olhava a miúdo para a porta da sala, e ao menor ruído de uma pessoa que entrava sentia um movimento que, ou era uma mistura de esperança e de temor, ou uma sensação que ela não podia explicar a si mesma; e se enfim o mancebo chegava, seu descontentamento como por encanto desaparecia, do mesmo modo que resistia a todos os seus esforços e a acompanhava durante o resto do serão, se Cândido faltava a ele.

Lembrava-se que lhe inundava o coração um prazer imenso quando o moço a ela se chegava, e lhe dizia a tremer algumas palavras; e não sabia por que, tendo às vezes de responder-lhe, tremia também e corava...

(continua...)

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