Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— O meu querido!... o meu querido!... prosseguiu D. Rosa; ah!... mal podes conceber o susto que por causa dele passei ainda há pouco; eu te conto. Minha mãe mandou-me estudar a lição de piano; eu vim e apenas tinha tocado a introdução de uma peça, entrou ele pela porta da escada, que estava aberta, como agora, e, segundo seu costume de três dias, veio encostar sua linda cabeça no meu colo para ouvir-me tocar; mas cinco minutos não se haviam passado, quando senti os passos de minha mãe... ah!... não tive tempo, senão de entrar na alcova, e de escondê-lo atrás das cortinas do leito... então ele, que é tão medroso!...
— E depois?
— E depois, minha mãe não me deixou mais; vim para a janela para não fazê-la desconfiar, e, se o meu querido ainda não fugiu, vou agora dar-lhe escapula.
E D. Rosa voltou-se para ir abrir a porta da alcova, quando Félix ergueu-se e mostrou-se pálido, trêmulo e desfigurado.
— Ouvi tudo!... balbuciou ele a custo.
— Senhor!... meu primo!... exclamou a moça.
— Digo que eu estava ali, continuou o infeliz ciumento com voz rouca e sinistra, estava ali e ouvi tudo!... tudo!...
— Que quer dizer?... perguntou D. Rosa confusa.
— Quero dizer que, se há uma mulher que reúna em si quanta perfídia, quanta ingratidão, quanta astúcia e vileza tem vomitado o inferno, essa mulher... é a senhora.
— Senhor!...
— E a prova do que eu digo está bem perto de nós... vai mostrar-se já; porque eu vou abrir a porta desta alcova, e o infame há de aparecer para logo depois sair daqui... comigo. D. Rosa soltou uma risada de escárnio.
— Escarneça!... escarneça!... mas o escárnio que me está lançando, há de ser lavado com o sangue do covarde!
E Félix dirigiu-se à porta da alcova.
— Um duelo?! exclamou D. Rosa com indizível expressão de ironia; um duelo?... nunca o acreditei tão intrépido.
— E será um duelo de morte?...
— Vergonha a quem recuar! disse a moça.
— Não serei eu! bradou Félix enfurecido.
— Vergonha a quem recuar!... repetiu a moça, abrindo em par as portas da alcova.
Félix avançou furioso para o leito...
Com as mãos trêmulas, correu as cortinas...
Olhou com olhos flamejantes de cólera.
Soltou uma gargalhada...
E entrou de novo na sala, trazendo o seu rival nos braços.
O querido de D. Rosa era o seu cachorrinho; o seu branco e felpudo dogue.
IX
Noites de visitas
Félix, com o dogue nos braços, alcançou para logo o perdão das parvoíces que haviam dito a Rosa, que recebeu, apertou contra o peito e beijou cem vezes o feliz felpudo animalzinho, pelo que já o padecente primo começava a fazer uma quadrinha imitante de outras por ele lidas, e principiava a dizer assim:
Quem me dera ser cachorro, Para...
Quando foi estagnada sua veia poética pela repentina chegada de Tomásia, que, ouvindo as risadas que há pouco tinham soado, vinha pedir a explicação delas. Encontrando o dogue nos braços de sua filha, seu rosto tomou expressão de cólera; mas cedo riu-se também com a melhor vontade, sabendo do qüiproquó de seu sobrinho, e em louvor de tal prometeu a Rosa fechar os olhos à sua paixão pelo cãozinho.
Félix, que já se achava mais a sangue-frio, reparou então que alguma novidade devia haver na casa de sua tia; a sala estava cuidadosamente ornada; havia flores frescas nos vasos, e velas ainda virgens nos castiçais; as duas senhoras mostravam-se vestidas no último apuro da mais afetada simplicidade.
— Então que quer dizer isto? perguntou ele; minha tia, eu aposto que se esperavam visitas aqui!
— E ninguém será tão louco que queira perder apostando contra ti, respondeu Tomásia, sentando-se com um cuidado admirável para não amarrotar o vestido.
— Mas quem são, portanto, as pessoas que se devem mostrar hoje?... eu quero saber se me cumpre fugir ou ficar.
— Fica, fica, meu Félix, ao menos para me ajudares a sofrer com paciência as parvoíces do Sr. Estanislau, de sua terrível metade, desenxabida filha, e malcriado filho... eu bem me não quero meter com semelhante gente... são as amizades de meu marido.
— Porém, minha mãe, disse Rosa, em compensação meu primo apreciará a sociedade de D. Mafalda, que sem dúvida traz consigo a lindeza de sua sobrinha.
— Fico, minha prima, fico; ainda que seja só para ouvir D. Mafalda e ver D. Inácia.
— Pois o que tem de bom ouvir-se D. Mafalda? perguntou Tomásia.
— Muito, tiazinha; ela sabe e conta a crônica dos mortos, dos vivos, e até dos que ainda estão para nascer.
— E o que tem de bom ver D. Inácia? inquiriu Rosa sorrindo-se de antemão.
— Misericórdia!... minha prima!...
— Ora... estou vendo que o senhor não a queria...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.