Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Estou muito velha e muito doente... e vossa excelência ainda tão formosa, mas mais descoradinha!... Eu vim de Viana há três meses, perguntei por vossa excelência, e ninguém me soube dizer onde parava. E estava aqui! E eu sem o saber!
― Então tem tido muitas amarguras na sua vida? – perguntou Ângela com os olhos afogados em lágrimas muito fitos nela.
― Oh, se tenho, minha senhora! Há perto de quatro anos a vivermos dum trabalho pouco rendoso...
― A viverem... – atalhou Ângela. – Então seu irmão...
― Meu irmão está comigo, minha senhora. Nunca nos desamparamos um ao outro, e Deus tem sido misericordioso conosco deixando-nos viver juntos...
― Aquela morte de seu marido... – balbuciou a sobrinha de D. Beatriz.
― Não me fale nisso, minha senhora, que ainda se me parte o coração, quando me lembro de o ver cheio de vida e lutando com a desgraça para poder pagar à Sr.ª D. Beatriz, sem vender a casa; e, em poucos dias, matou-o a paixão de se ver desonrado e...
― Sei tudo, sei tudo... – murmurou Ângela apartando-lhe as mãos. – Perdoe-me, sim? – continuou ela com a voz tremente. – Perdoe a quem foi a causa de morrer seu marido...
― A causa, minha senhora, não foi vossa excelência; foi a má estrela que nos perseguia. Ninguém podia prever o que aconteceu. Tão culpada foi a senhora, como eu, como o meu pobre Francisco. Por causa dele também vossa excelência padeceu muito, segundo lá ouvi dizer em Viana a uma criada que foi do convento. Afirmaram-me que vossa excelência chegara a sentir a precisão de trabalhar... Quem diria!...
― E que tem isso? Pior seria se o meu trabalho me não chegasse para o pão de cada dia... – refletiu Ângela.
― Quando contei isto a meu irmão, parecia que a luz dos olhos se lhe apagava nas lágrimas...
As duas senhoras referiram mutuamente a sua história, desde o momento em que se apartaram.
A leitora sensível antes quer ignorar misérias que ali se revelaram as duas amigas; que farte tristezas são já sabidas para piedade e simpatia.
Tinham decorrido três horas de prática entre sorrisos e lágrimas, quando Joana se levantou e disse:
― Deixe-me vossa excelência ir fazer o jantar de meu irmão.
― Espere... – atalhou Ângela, e foi ao seu quarto.
Parou à entrada, e exclamou, como se houvesse medo de entrar:
― Ah!
E, chamando Vitorina, perguntou com aflição:
― As jóias de minha mãe ficaram na quinta, não ficaram?
― Sim, minha senhora. Vossa excelência disse-me que as fechasse na cômoda, porque eram coisas antigas que já se não usavam; até seu marido, nessa ocasião lembrou que o meu melhor era trocá-las por enfeites modernos.
― É verdade!... – recordou Ângela com muita amargura. – Como há de ser isto? Eu queria dá-las a Joana. ― Dá-las?... e se seu marido perguntasse por elas?
― Respondia que as dei.
O tom severo desta resposta forçou a criada a silêncio.
Ângela voltou à sala, apertou entre as suas as mãos da viuva, e disse-lhe com veemente solenidade: ― A minha amiga vai jurar pela memória de seu marido que não dirá a seu irmão que me viu.
― Juro, minha senhora.
― E não lho dirá por que o vermo-nos complicaria o infortúnio de ambos.
― Não era preciso lembrar-mo vossa excelência.
― E promete-me aqui vir amanhã à mesma hora?
― Sim, minha senhora.
― Então vá, e creia que tem aqui ao pé da minha alma de irmã a alma de seu marido. Eu hei de melhorar a sua sorte, se a senhora nunca esquecer o seu juramento.
― Não esquecerei, Sr.ª D. Ângela.
Saiu Joana; e a esposa do brasileiro abriu um estojo de veludo, que continha o adereço que o marido lhe dera. Examinou as peças, procurando uma, cujas pedras se desencravassem com menos custo. Escolheu a pulseira, e dela com os bicos de tesoura extraiu um brilhante. Chamou Vitorina, e disse-lhe:
― Vai vender esta pedra a um ourives.
― Vender?!... – objetou com espanto a criada.
― Sim, vender.
― Teremos novas desgraças, minha senhora?
― Não. Temos desgraças antigas a remediar. Faz o que te mando, Vitorina, senão, vou eu.
A criada sentiu-se impelida por irresistível força. Ângela, quando mandava com império, fazia lembrar à velha a soberba e inflexível Maria d’Antas.
Saiu Vitorina, examinando, na rua das Flores, as ourivesarias mais abastecidas. Entrou na loja dos Srs. Mourões, e vendeu o brilhante por 250$000 réis.
Voltou a tremer, medindo a gravidade do delito pela abundância de oiro e prata que lhe pesava de certo modo na consciência. Entregou o dinheiro a sua ama, e abalançou-se a fazer considerações timoratas sobre o alcance de tal passo.
D. Ângela rebateu os sustos de Vitorina com o seu ar de infinita alegria – raio de luz que muitos anos havia não tinha tocado os lutos daquela alma.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.