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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

Não comentemos o desquerer das autoridades peruanas. Era antigo. Desde 1811 o reportado D. Manoel Ijurra denunciava "los Brazileros más próximos al Perú que tienen la bárbara costumbre de armar expediciones militares con objeto de haccer correrías sobre los indios Maynas, atropelando muchas veces las autoridades..."; ou apresentava-os como "absolutos monopolizadores del comercio de importación o exportación." Cinco anos depois, em ofício alarmante, o Subprefeito de Maynas solicitava providências urgentíssimas "al intuito de que los Brazileros moradores de Caballo-Cocha, salgan fuera de esta provincia, se buenamente no quieren, por la fuerza"; e pintava-os laivando-os dos mais denegridos estigmas. Por fim o Governador-Geral das Missões (1849) determinou se exigissem passaportes de todos os brasileiros que lá entrassem, gaguejando num castelhano emperrado esta razão curiosíssima: "que no se experimentaba provecho alguno en estos negociantes del Brazil; ni menos hay bayonetas con que poder conterlos; hacen lo que quieren metiendo-se por los rios, extraendo zarza, manteca, salado e otras especies..."

Não prossigamos.

Adivinha-se nestas linhas, que poderiam ser prolongadas, a invasão formidável que se alastrava avassaladora para o ocidente, desafiando os ódios do estrangeiro; espraiando-se pelo vale do grande rio, por Loreto, Caballo-Cocha, Moremote, Perenate, Iquitos, até Nauta, na embocadura do Ucaiáli; subindo pelo Ucaiáli em fora até além do Pachitéa: deixando nos mais vários pontos, nos sítios numerosos, nas trilhas coleantes do deserto, e até nos costumes ainda persistentes, os traços indeléveis da passagem.

Se a historiássemos contraporíamos às verrinas oficiais dos subprefeitos apavorados, cujos dizeres se pejoravam à medida que progredia aquela surda conquista do solo, os próprios conceitos de Antonio Raimondi. Mas aquele belo tipo de Joaquim Ribeiro, que em 1868 o maior naturalista peruano foi encontrar nas margens do Itaia possuindo as melhores fazendas do Departamento, concretiza uma réplica irrefragável. Não o pearam tão pequeninos empeços. Criada a indústria extrativa, a exportação da borracha a partir de 1871 erigiu-se preeminente entre as dos demais produtos de Loreto. E as turmas dos extratores, sem nenhuns amparos oficiais, rompendo espontâneos de toda a parte e arremetentes com as mais desfreqüentadas espessuras, ultimaram em pouco tempo a empresa quase secular tantas vezes cindida de reveses.

Desvendou-se todo o Oriente.

Mas há um reverso no quadro.

A exploração do caucho como a praticam os peruanos, derribando as árvores, e passando sempre à cata de novas "manchas" de castilloas ainda não conhecidas, em nomadismo profissional interminável, que os leva à prática de todos os atentados nos recontros inevitáveis com os aborígenes — acarreta a desorganização sistemática da sociedade. O caucheiro, eterno caçador de territórios, não tem pega sobre a terra. Nessa atividade primitiva apuram-se-lhe, exclusivos, os atributos da astúcia, da agilidade e da força. Por fim, um bárbaro individualismo. Há uma involução lastimável no homem perpetuamente arredio dos povoados, errante de rio em rio, de espessura em espessura, sempre em busca de uma mata virgem onde se oculte ou se homizie como um foragido da civilização.

A sua passagem foi nefasta. Ao cabo de 30 anos de povoamento, as margens do Ucaiáli, tão nobilitadas outrora pela abnegação dos missionários de Sarayaco, patenteiam, hoje, nos seus vilarejos diminutos, uma decadência moral indescritível.

O Coronel Pedro Portillo, atual Prefeito de Loreto, que as visitou em 1899, denunciou-a, indignado: Alli no hay leyes... El más fuerte que tiene más rifles, es el dueño de la justicia". Verberou depois o tráfico escandaloso de escravos. E, afinados pelo mesmo tom, um sem-número de outros excursionistas, que fôra longo citar, delatam, em narrativas expressivas, o regime de tropelias que se normalizou naquelas terras — e se amplia seguindo os rastros do homem que passa pelo deserto com o só efeito de barbarizar a própria barbaria.

Ora, na presciência dos inconvenientes desta exploração, que, entretanto, determinou o pleno desdobramento de seu domínio no Oriente, o governo peruano nunca renunciou ao seu primitivo propósito de uma colonização intensiva. E para ao mesmo tempo garantir o tráfego do melhor caminho para o Amazonas, pelo Ucaiáli, que vai da estação terminus de Oroya aos tributários principais do Pachitéa, estabeleceu em 1857, à margem de um deles, o Rio Pozuzo, a colônia alemã, que sobre todas lhe monopolizou os cuidados e uma solicitude nunca interrompida.

Realmente, a situação era admirável. À média distância de Iquitos, próxima aos afluentes navegáveis do Ucaiáli e num solo exuberante, o núcleo estabelecido era, militar e administrativamente, o mais firme ponto estratégico daquele combate com o deserto, justificando-se os esforços e extraordinárias despesas que se fizeram para um rápido desenvolvimento, que as melhores condições naturais favoreciam.

(continua...)

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