Por Lima Barreto (1922)
De resto, ele já não contava com proteção alguma.
No começo, foi seu pai; depois, seu tio, o capitão-médico — ambos solicitados tenazmente por sua mãe; mas agora? Agora, ele estava certo de que nenhum deles se abalaria e gastaria um ceitil por causa dele. Restava o Capitão Barcelos. Neste, porém, ele não depositava grande confiança. Fosse coisa pequena em que nada se gastasse, o capitão mover-se-ia; no caso contrário, porém, fugiria com o corpo. Era preciso cautela, senão...
Cassi continuou a pesar os meios que podia encontrar para entender-se com Clara. Com Lafões, ele já não contava. Vira, na última visita que lhe fizera, que o velho português era matreiro. Com ele, não levaria vantagem alguma. Como havia de ser?
Dos bondes continuava a descer gente aos magotes, que se encaminhava apressadamente para a plataforma da estrada de ferro. Alguns iam tomar um café, antes de se encaminharem, definitivamente, para os "varais" da repartição; outros iam até às casas de "bicho" e deixavam lá o jogo; mas todos iam afinal trabalhar, fazer alguma coisa para ganhar dinheiro. Só o Senhor Cassi Jones de Azevedo ficava...
— Oh! "Seu" Cassi, como vai essa força?
O menestrel suburbano da modinha lânguida e acompanhamento luxurioso de olhares revirados voltou-se e reconheceu quem falava:
— Como vai você, Praxedes?
— Eu, "Seu" Cassi, vou bem. Mas esse negócio de foro... Ontem, apresentei uma exceção de incompetência; pensei que fosse julgada logo, mas o juiz transformou o julgamento em diligência... Borrou-me a pintura... Hoje, vou ver se uns embargos meus são recebidos. Tenho que ir lá embaixo... Às vezes, dá-se uma penada e lá vêm vinte, trinta e mesmo cinqüenta...
Vendo que a conversa não interessava Cassi, mudou-a de sentido e perguntou:
— Tem ido à casa do carteiro, lá na rua Teresina?
— Há muito tempo que não; e você?
— Eu só fui lá a convite de um dos músicos. Não tenho relações particulares com a família. Por falar nisso: sabe quem saiu agora mesmo daqui?
— Não.
— O doutor Meneses, aquele velho barbado, que sabe muito — não conhece?
Correu alguma coisa na cabeça de Cassi, que o fez perguntar com pressa, antes de responder:
— Para onde ele foi?
— Foi para a casa do carteiro. Está tratando dos dentes da filha e almoça quase sempre lá. Ele precisava, coitado do doutor Meneses! — um homem ilustrado, velho, doente — quase não comia; era só beber. Isso lhe fazia mal, estava requeimando "ele" por dentro... Pode-se beber; mas é preciso comer — não acha?
Praxedes não deixava, durante toda a conversa, de mover com os braços, sem medida nem compasso, e esticar a medonha cabeça, que teimava cada vez mais em se enterrar pelos ombros adentro.
— É um achado para ele — fez Cassi, reprimindo a alegria. — Tenho também um trabalho para o Meneses... Se você o encontrar, diga-lhe que eu quero falar com ele.
— Não me esquecerei; mas, caso o senhor tenha pressa, pode procurá-lo à noite, ali, no botequim do Fagundes, perto do posto de bombeiros. Até logo, que tenho que chegar cedo à cidade!
Cassi despediu-se também e encaminhou toda a sua esperança de entenderse diretamente com Clara, por intermédio de Meneses, Ele sabia-o velho, alquebrado, necessitado, viciado na bebida, sem dinheiro — seria fácil vencer as suas repugnâncias. Pela primeira vez, pensou o modinheiro, tinha que gastar algum...
Em parte ele se enganava, porquanto, embora Meneses estivesse nas últimas extremidades, até agora não fizera ato menos liso na sua vida. Podia-se classificá-lo de puro, Meneses, José Castanho de Meneses, nascera de pais portugueses, numa cidade do litoral — sul do Estado do Rio de Janeiro. Naqueles tempos, essas cidades eram prósperas; mas, atualmente, têm, para demonstrar a sua irremediável decadência, o fato de não se ter notícia de haver sido construída em qualquer delas, de quarenta anos a esta parte, uma única casa,
O pai tinha uma loja, um bazar, que ia próspero; mas, com a decadência da localidade, de que foi um dos fatores a construção da Central, o estabelecimento comercial foi decaindo. O pai viu-se obrigado a suprimir despesas, uma das quais era a da educação e instrução dos filhos. O José, que já tinha dezessete anos, veio para a loja, os outros foram colocados aqui e ali, nas pescarias de "currais", que o pai tinha, e na salga de peixe, levada a efeito muito rudimentarmente, também do velho Meneses.
(continua...)
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.