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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Agora, volveu D. Margarida, é cuidarmos de decidir quando há de ser o grande dia!

O Coruja, sempre metódico e cauteloso, declarou que achava bom esperar um pouco. Nada de precipitações!... Ele estava no princípio de sua carreira, ainda não podia realizar o casamento; mas, se es coisas caminhassem para a frente, como era de esperar, em breve tudo se poderia fazer.

Desde então as suas constantes visitas à casa da discípula tomaram um caráter mais exclusivo e mais familiar. Aparecia agora mais cedo e assentava-se ao lado da noiva, no mesmo lugar onde, desde o princípio, se habituara a dar as suas lições.

O estudo durava em geral duas horas, no fim das quais se afastavam os livros e começavam todos os três a conversar até ao bater das nove.

Coruja, fácil como era para se escravizar aos hábitos, no fim de algum tempo já não podia passar sem aqueles calmos serões à luz do velho candeeiro de D. Margarida; já não podia dispensar a xicarinha de café, que ele ouvia moer no pilão, no quintal; e precisava sentir ao seu lado, durante aquelas horas certas, o vulto passivo e silencioso de Inez. Seu coração imaculado e casto foi pouco a pouco se deixando vencer por um sentimento até aí desconhecido para ele.

Era um amor muito transparente, muito calmo, que esperava com evangélica paciência o dia da ventura, sem a mais ligeira perturbação dos sentidos.

V

Desde que André se mudou para o colégio, a casa de Teobaldo foi aos poucos perdendo o seu digno aspecto de asseio e de ordem, até se transformar em verdadeira república de estudantes.

A Ernestina ficou pasma.

- Como este rapaz tem mudado!... exclamava ela a cada instante, sem atribuir sequer ao outro, ao feio, a alma da primitiva limpeza e do primitivo arranjo, que tanto a maravilharam.

Agora, Teobaldo já não tinha, como dantes, certo escrúpulo em conservar a casa decente. Os seus companheiros da pândega, que lhe pareciam com mais freqüência, já não lhe ouviam dizer em certas ocasiões: "Não; não façam isso, para não afligir o Coruja!

Ele não gosta destas brincadeiras!..."

Ernestina suportava-lhe as estouvices porque não tinha outro remédio: adorava-o cada vez mais; sofria em vê-lo tão extravagante, tão sem correção e sem ,juízo, mas sofreria ainda pior se não o pudesse ver absolutamente.

Enquanto a não abandonara a esperança de conquistá-lo, empregou para isso todos os recursos de sua ternura; depois, certa de que nada conseguiria, resignou-se às migalhas do amor que ele lhe atirava de vez em quando, como para a esfaimar ainda mais.

A infeliz já se não queixava e já nem sequer procurava disfarçar o seu cativeiro; entretanto, um dia em que lhe apareceu na porta uma mulher alta, bonita, vestida com um certo exagero de moda, a perguntar muito desembaraçada se era ali que morava Teobaldo, ela disparatou:

- Pois até mulheres já queriam entrar também na patuscada? Era só o que faltava!

E, fechando-lhe a porta no nariz:

- Procure-o na rua, se quiser!

Depo2s, meteu-se no quarto e pôs-se a chorar, como uma desesperada.

Às três horas, quando Teobaldo chegou de fora, ela foi-lhe ao encontro e, mais branca do que a cal da parede, os beiços trêmulos, as feições estranguladas de ciúme, disse-lhe quase sem poder falar:

- Isto não pode continuar assim!

- Assim, como?

- Nesta desordem em que vai tudo! O senhor está um perdido!

- E a senhora que tem a ver com isso?

- Quero desabafar!

- Pois desabafe, mas que saia longe daqui!

- Cínico!

- Não me aborreça!

E Teobaldo galgou a escada do segundo andar.

Ela seguiu atrás.

- O senhor precisa mudar de vida! exclamou penetrando no quarto.

Ele com a certeza de quem é amado a ponto de lhe perdoarem tudo, pôs-se a cantarolar, tirou o paletó e estendeu-se sobre o divã.

- Até aqui, prosseguiu Ernestina, sem poder conter a cólera; até aqui suportei e suportei muito! O senhor transformou esta casa em uma república, mas agora a coisa é outra; agora até as mulheres querem entrar na pândega!

- Hein? fez Teobaldo, voltando-se para ela.

- Sim, senhor! Veio aí uma mulher à sua procura.

Teobaldo deu um pulo da cama.

- Uma mulher? exclamou. Ah! eu bem contava que ela havia de vir!

E, voltando-se vivamente para a rapariga:

- Uma mulher alta, não é verdade? Pálida, de olhos pretos!...

- Vá para o diabo que o carregue! respondeu Ernestina virando-lhe as costas e saindo do quarto furiosa.

- Então ... . disse consigo Teobaldo, esfregando as mãos; voltou ou não voltou?... Ah! logo vi que Leonília havia de voltar !...

Leonília era a mais formosa criatura que empunhava nesse tempo o cetro do amor boêmio.

Teria então pouco menos de trinta anos e parecia não haver ainda orçado pelos vinte.

(continua...)

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