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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Ainda o não vi rir uma só vez... considerou Jerônimo.

— Muito! muito triste!... continuou a velha. As vezes, fica horas esquecidas à mesa, com os olhos pregados no teto, a cismar!... E a comida às moscas!.. Vão lá tirá-lo dali! Doutras vezes dá-lhe pra passear no jardim ou no cemitério, e então, adeus! E' preciso ir buscá-lo quase à força pra dentro de casa!

Põe-se então a andar pra baixo e pra cima, que nem uma alma penada, Deus me perdoe!

É que talvez esteja rezando... disse o hortelão, muito interessado com o que lhe contava a tia Salomé.

— Ainda ontem fui chamá-lo para falar ao filho do Mongol, que aí veio pedir-lhe que o casasse com a pequena do tio Jorge, e toquei-lhe no ombro. Pois acredita você, mestre Jerônimo, que o senhor vigário soltou um grito e ficou a olhar-me espantado, como se eu cá fosse algum fantasma?...

— E por que, tia Salomé?

— Ora! sei cá por quê?... Ficou mais branco que aquela cal da parede! E todo a tremer!... Já se vê, pois, que não rezava, porque ele quando reza, ouve-se-lhe a oração e vê-se-lhe o movimento dos lábios... Nessas ocasiões é até quando fica ao contrário um poucochito mais tranqüilo e de melhor humor. Cá pra mim, ninguém me tira da cabeça que ali anda tentação do cão!... Ali anda rabo de demônio!

— Ou talvez de saia!... acudiu o hortelão, coçando a cabeça.

— Credo, mestre Jerônimo! Não diga isso nem brincando, que brada aos céus! Aquilo é um santo! Olhe! Se frei Ozéas estivesse ainda aqui, juro-lhe que o senhor vigário não chegaria ao estado a que chegou! Até o acho meio apatetado!

Deus me perdoe!

— Apatetado, tia Salomé? ...

— Pois se lhe disser que de uma feita o deixei ajoelhado no altar depois da missa e que, voltando só à tardinha à igreja, para reformar o azeite da Virgem, encontrei o homem ainda na mesma posição!... Os braços abertos, os olhos ferrados na santa, e tremendo de frio, coitadinho! que metia dó! Chamei-o, qual "Senhor vigário! Ó senhor vigário!" Respondeu você, que lá não estava?... Pois assim respondeu ele! Afinal agarrei-o pelo braço e disse-lhe que aquilo não tinha jeito!

— Não tinha, decerto tia Salomé!

— Acompanhou-me tiritando. Você sabe como a capela é fria!... E mal deu alguns passos pelas lajes, desatou num pranto de choro, como eu nunca vi!

— Chorando?! Que me diz! tia Salomé?!

— Como uma criança, mestre Jerônimo! Nunca vi chorar tanto! Ao depois, meteu-se ali no quarto, não quis comer nada, e levou toda a noite a andar de um para outro lado, até que...

Mas interrompeu-se, porque a porta acabava de abrir-se, e Ângelo entrava na sala, com o seu passo lento e o seu ar triste e acabrunhado.

Fez-se silencio.

CAPÍTULO II

Mal secreto

Ângelo vinha profundamente pálido e abatido, mas com a fisionomia serena. Um quê de tranqüilo cansaço imobilizava-lhe o rosto, não deixando distinguir bem qual a fonte da expressão que nele predominava. Seria a piedosa resignação do justo que, seguro da sua fé, caminhava de olhos fitos no divino ideal, passando, sem rasgar os vestidos da alma, por entre todos os espinhais mundanos; ou seria o surdo desfalecimento de quem, a pura violência, esmaga dentro do próprio peito a fecunda semente das suas mágoas, como a mãe desnaturada sufoca nas entranhas o palpitante fruto dos seus amores?

Vagarosamente atravessou a sala e foi sentar-se numa velha cadeira, ao lado da tosca mesa de carvalho.

A criada e o hortelão acompanhavam-lhe os movimentos com um lastimoso olhar.

— Boas noites, tia Salomé, boas noites, mestre Jerônimo, disse ele, cumprimentando-os humildemente.

— Deus Nosso Senhor lhe dê as mesmas, senhor vigário! respondeu a criada, quase que ao mesmo tempo que o hortelão.

E a boa velha, pensando em Robino, que continuava a dormir a um canto, foi tratar de afastá-lo dali, para poupar a Ângelo o espetáculo daquela imoralidade. Mal, porém, lhe pôs as mãos em cima, 0 pequeno gritou acordando:

— É de virar! É de virar! Hup! Hup! Hurra!

— Que é isto?... perguntou Ângelo, voltando o rosto.

— Ora! Que há de ser?... explicou a criada, enquanto Jerônimo carregava o pequeno lá para dentro. É o mariola do Robino que está que se não pode ter nas pernas! Se não fosse o hortelão, ficaria aí estendido pelo caminho e talvez se afogasse na enxurrada, que vamos ter muita chuva! Seria bem feito!

— Coitado!... murmurou Ângelo.

— Coitado?! Ainda o Sr. vigário diz: "Coitado!"?... nunca vi cousa assim! Isto já não é bondade é tolerância demais! ter pena de um maroto que se vai meter na taverna do Bruxo até ficar a cair!... O Sr. vigário faz mal em proteger semelhante biltre, que para nada serve! Queria ver se o despedissem daqui, onde ele encontraria quem o aturasse!...

(continua...)

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