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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

O comendador afirmou que já o conhecia muito de nome, e certa noite, em que o Melo apareceu mais cedo para o cavaco, aquele o tomou pelo braço e disse­lhe ao ouvido:

— Você é quem me podia prestar um serviço...

— O que quiser, comendador!

— Você é um moço inteligente, e estou convencido que será capaz de guardar um segredo...

Meio compôs o ar e respondeu:

— O comendador já tem tempo para apreciar o meu caráter!...

— Sim, mas olhe que o negócio é muito sério!...

— Pode confiar de mim sem receio!

— Promete então guardar segredo?

— Dou­lhe a minha palavra de honra!

— Pois vamos cá ao gabinete, e você ficará sabendo do que se trata...

E os dois encerraram­se no grave escritório do comendador Moscoso.

XIII

AS VÍTIMAS DO COMENDADOR

— Eu sou o autor daquelas mofinas contra o coronel Pinto Leite... segredou o comendador, fechando a porta.

O Melo, por única resposta, deu um longo assovio e estalou os dedos no ar. O comendador aproximou­se mais dele e disse­lhe ao ouvido:

Precisamos esfregar em regra aquele sujeito!...

— Schit! fez Melo, cheio de movimentos misteriosos.

E, depois de uma pausa, o comendador contou uma história muito engenhosa a respeito de vícios, da maldade e da hipocrisia do pai de Gaspar.

— Ora, que tipo!... dizia de vez em quando o homem dos rolos de papel; e passava a lembrar planos soberbos e meios ardilosos de estigmatizar o coronel. Continue a atacá­lo pelo ridículo! Ataque­o pelo ridículo, e verá o efeito! Olhe! lembra­me até agora uma cousa. Caricaturas! Não seria mau caricaturar o birbante!...

— Não! não! vamos mesmo pela mofina. A caricatura é dar­lhe muita importância!... E você é quem me há de arranjar umas boas mofinas... Eu, confesso, estou esgotado! Dezessete anos de mofina não são nenhuma brincadeira!...

— Ora, se as arranjo! é o meu gênero! eu tenho a veia da sátira! Na piada de doer ninguém me leva à palma!

— Pois arranje, arranje, que você não será com isto prejudicado. E quando precisar de alguma cousa para as despesas, é dizer! que nós estamos neste mundo para servir uns aos outros...

— Deixe­o por minha conta!

— Mas...

E o comendador levou o indicador ao lábios:

— Nem pio!...

— Sou então alguma criança?... A alma do negócio é o segredo!...

— Pois ficamos entendidos... E vamos para a sala, que suponho já lá estar alguém.

E saíram do gabinete, a conversar disfarçadamente em outro assunto.

A mofina imediata a essa conversa foi terrível. O coronel ao lê­la, sentiu tal assomo de cólera que caiu prostrado em uma cadeira, da qual tiveram que o conduzir para a cama.

Gaspar havia poucos dias antes partira para Petrópolis, e só quem apareceu à noite em casa do doente foi o Alfredo Bessa, o empregado público demitido.

Entrou sinistramente, com o seu profundo ar de miséria; estava cada vez mais acabado, mais achacoso e mais triste.

— É você, meu genro?... perguntou­lhe da cama o pobre velho, ao vê­lo entrar. Seja bem aparecido.. Eu estava muito só!...

E acrescentou, depois de um silêncio, meneando funebremente a cabeça:

— Não sei que diabo de terror a todos incute a idéia da sepultura!... À proporção que vai a gente se aproximando dela, vão rareando os companheiros e os amigos!...

Alfredo atravessou a sala com o seu passo discreto e medido, passou cuidadosamente o velho chapéu de copa alta sobre um traste, e foi colocar­se à cabeceira do coronel.

— Então, que história foi essa? perguntou ele ao doente, com um sorriso que pretendia animar, mas que só conseguia entristecer.

— Ora, o que há de ser? São aquelas malditas mofinas, que há tantos anos me perseguem, como se eu fosse algum malvado!

E possuindo­se de cólera:

— Com todos os diabos! será possível que tenha eu inspirado um ódio tão grande e tão rancoroso, que, ao cabo de tanto tempo, em vez de extinguir­se, recrudesça com mais fúria?! Mas, com milhão de metralhas! qual foi o meu delito? A quem prejudiquei em meu caminho? a quem tirei o pão? a quem roubei a honra? a quem procurei arrancar a vida?!

E voltando­se para o genro, exclamou, agoniado, e febril:

— Dou­te minha palavra de honra, meu bom amigo, que não me dói a consciência de haver feito mal a ninguém! Às vezes perco a noite a cogitar de quem será o dedo que trama na sombra esta luta implacável contra a minha tranqüilidade!... Não atino, não acerto! Ah! não poder eu descobrir, não poder esmagar nestas velhas mãos o réptil infame, que me rói as entranhas!

E o coronel repisou, com uma grande excitação:

— Esmagava­o! Juro que o esmagava!

— Está bom, está bom! não vale a pena exaltar­se... O caluniador há de ser descoberto! O que se faz neste mundo que não se venha a saber?...

(continua...)

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