Por Franklin Távora (1879)
— Estás lívido — continuou Martins. Nunca te vi assim.
— É a tua vista que se engana; ou antes tu não contas a história verdadeira.
Queres fazer a experiência in anima amici. Perdes o tempo; — Afirmo-te que te estou dizendo a verdade.
— Não é possível.
— Palavra de honra. Ângelo. Mas nisso não há nada de singular. Há quase uma semana, segundo te disse, não usado esforço senão para chegar a este resultado. Maurícia voltou à razão.
— Mas quando foi que se deu isso? — Quando? Agora mesmo.
Martins entrou numa longa série de particularidades para trazer a convicção ao espirito do amigo. Quando a verdade se tornou evidente, e não foi mais possível recusá-la, Ângelo deixou-se ficar em silêncio. Mais de uma vez, Martins dirigiu-lhe a palavra, mas não conseguiu arrancar-lhe a resposta. A sua concentração era incrível.
— Condenas uma ação tão bonita?
— Nada tenho com isso. Mas pode-se deixar de ficar espantado diante de tão rápida mudança?
— Ora, meu amigo; tem sempre curso tortuoso as coisas desta vida. E adeus! Tenho pressa. Quero levar a Eugênia esta agradável nova.
Passemos por cima do sofrimento de Ângelo durante os primeiros dias que se seguiram a esta revelação. Em vão, tentaríamos pintá-los; . A linguagem humana não tem tintas para por em tela as crises em que a insônia roça pela razão, e a morte, espectro medonho nos dias felizes, aparece no curto horizonte do pensamento como a mensageira da única consolação possível.
No dia em que Virgínia devia casar-se, Martins procurou Ângelo depois do almoço.
— Virgínia casa-se hoje. Vais?
— É impossível. Morreu meu pai. Às duas horas, embarco para ir buscar minha mãe e meus irmãos.
Ângelo dizia a verdade. Aquela semana fora fecunda em dores para ele.
Martins ficou estatelado. Ignorava esse acontecimento. Exprobrou ao amigo o seu egoísmo na dor.
À hora indicada, o bacharel deixou a estrada.
Seu coração parecia só pulsar pelos entes queridos que a trinta léguas tinham nele a única esperança.
CAPÍTULO XII
Não quis Albuquerque que Virgínia saísse da casa-grande, depois de casada, não obstante chegar para duas famílias a casa que ele mandara preparar para os pais da menina. Muitas razões dava, quando queria justificar a resolução de ficar com os noivos em sua companhia; as más línguas, porém, diziam que a predominante, que ele ocultava sempre, era a de não lhe inspirar confiança a harmonia dos esposos reconciliados.
Não quis igualmente que a mudança de Maurícia com o marido para a nova habitação se realizasse, senão na mesma noite do casamento da filha. De feito, quando o último convidado se despediu, Maurícia abraçou Virgínia, abraçou Paulo e tomou o caminho da porta. Tinha nos olhos lágrimas nitentes. Bezerra deu-lhe o braço que ela aceitou sem hesitar. Depois de três anos, era aquela a primeira vez que estes corpos se tocavam.
Ao passar pela senzala dos pretos, um deles disse:
— Sinhá Maurícia também teve hoje o seu noivado.
Maurícia viu neste pensamento um epigrama que lhe dirigira a fatalidade.
Em silêncio, atravessaram o pátio do engenho e entraram na habitação, que lhes estava destinada. Ficava distante obra de cem passos da casa-grande. Para que oferecesse cômodos bastantes, mandara Albuquerque que se aumentassem quartos e salas. Noivos amorosos e felizes tinham achado ali modesto e perfumado ninho, onde aqueciam os seus anelos. Os novos habitadores, porém, estavam longe de achar na convivência mútua o contentamento que só o amor verdadeiro proporciona.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.