Por Franklin Távora (1878)
O tempo, na forma do costume, não respeitou as prendas naturais e ainda menos as obras de grosseira arquitetura da grande propriedade de João da Cunha. No lugar onde foi a casa-de-vivenda – sobrado acaçapado de telhado enegrecido, que, por muito alto no centro, era a primeira parte da casa que se via de longe acima dos matos, com seis janelas quadradas, entre as quais se rasgava a porta, para onde se subia por uma escada de tijolos grosseiros – existe hoje seguramente uma renque de sicupiras colossais, cuja folhagem enche os vãos das duas salas fronteiras – uma reservada aos hospedes, a outra á família – agora desaparecidas. Mais para o centro, no lugar dos aposentos interiores, floresce o amarelo, o páo-d’arco, o jatobá. Na casa-de-purgar, que devia ficar á esquerda, nasceram cedros, que se mostram gigantes, cobertos de cipós, que, entrelaçando-se com a vegetação circunvizinha, formam galerias e abobadas naturais, onde não penetra luz e se acoitam durante o dia aves noturnas e cobras venenosas. Á direita, no lugar da capela, é agora uma elevaçãosita, de que se atiram aos ares uns sambaquis, umas maniçóbas, uns marmeleiros, umas cabuatãs, cujos ramos e folhas se entretecortam e amigam. Por onde corria a rua dos negros, composta de vinte a vinte e cinco casinhas de cada lado, vêm-se adjuntos de embiribas e jucás. A casa-da-moenda foi substituída por um grupo de colossais angicos. Enfim a atividade da grande propriedade passou, para dar lugar á serenidade, ao sossego, ao silencio majestoso e solene da mata virgem. As obras da arte substituíram-se as produções, desde as mínimas até as máximas, da natureza. Ao viver do homem sucedeu o do bicho bravio. Assim são as coisas deste mundo. No topo de uma civilização germinam latentes as raízes de uma barbaria.
Uma exceção destaca-se, para confirmar a regra geral, do circulo vicioso em que giram, após vidas, gerações, progressos humanos, os seres, ou antes, as forças indestrutíveis da matéria. Por entre uns paus secos aqui, umas moitas enredadas ali, umas arvores frondosas além, arrasta ainda a existência um ente contemporâneo de João da Cunha. Está mais selvagem, porém mais vivo e belo.
Suas forças não diminuíram, antes aumentaram. Em suas faces há risos continuados. Não lhe alvejam na fronte as cans da velhice. Esse ente é o rio Capibaribe-mirim, de que em 1711 passava por dentro do cercado do engenho Bujari, um braço cheio e vigoroso, o qual se estendia então sobre limpo e arenoso leito, enquanto hoje só o caçador ou algum viajor transviado o vê dilatar-se por entre matos e por baixo de frescas e amenas sombras. Semelhante ás cobras que rastejam em suas margens, ele serpeai desconhecido e caracola, ora brando e vagaroso, ora barrento e assanhado, atravessando os próprios pontos onde no século passado brincava com a luz do dia e recebia os beijos da franca viração dos descampados. As águas, com que refresca essa parte central da mata banham, antes de chegar ai, as povoações denominadas Mocós e Timbaúba, únicos pontos populosos por onde passam. Toda a restante região que elas percorrem, é solitária e erma. O morador do centro civilizado fez-se quase exclusivo habitante da solidão e da floresta.
O negro André, carreiro do engenho, tinha descarregado, no pátio da casa-de-vivenda muito antes do anoitecer do dia 23 de junho de 1711, vários carros de lenha destinada ás fogueiras de S. João. De dispor os grossos tóros de angico e cajueiro tinham sido encarregados três ou quatro parceiros daquele carreiro, de propósito dispensados com cedo do serviço diário para este fim.
No sobrado habitualmente silencioso, notava-se a animação, o bulício que acompanham fatalmente esta festa popular.
Viam-se senhoras na sala dos hospedes. Algumas delas eram mulheres, outras eram filhas dos nobres proprietários convidados para a reunião; e conversavam sentadas nas cadeiras de sola com pregaria que guarneciam a sala e das quais ainda se vêm algumas, que são como as relíquias do tempo em que representaram grande adiantamento da arte.
A mobília, não obstante ser de uma casa em que se professavam hábitos de nobreza e riqueza, não era de dar na vista; ao contrario, pouco adiantava á que se encontra presentemente em alguns engenhos, donde grande parte dos hábitos daquele tempo não desapareceu inteiramente. Além das cadeiras viam-se dois canapés, também cobertos de sola, três ou quatro bancas de acaju, e uma grande cômoda de nogueira com muitas ordens de gavetas. Sobre as bancas havia alfaias de prata e sobre a mesa estava assente um candeeiro grande do mesmo metal. Pendiam da parede, fronteiros e na mesma altura dois quadros em que apareciam retratados o senhor e a senhora do engenho.
A sala das mulheres, aquele momento deserta, atestava melhor o gosto, a educação e a mocidade de d. Damiana. Sobre cômoda de formas menos pesadas do que o da sala contígua, certamente obra de fora, em que se procurara entalhar uns longes do gosto de Luiz XIV, via-se um rico santuário de jacarandá, que, estando aberto, deixava ver por entre ramalhetes de frescas flores naturais, formosas e ricas imagens, adornadas com seda, ouro e pedras preciosas. Por junto da parede corria um estrado coberto de damasco, e fronteiro a ele mostrava-se o bufete de especial estimação da aristocrática senhora. Um tear ao canto, bancas de jacarandá de delicadas entalhas e sobre as bancas garrafinhas e frascos de vidro e cristal completavam, com o grande espelho afixado na parede, a sala particular de d. Damiana.
Ao acender as fogueiras achavam-se os homens, não na sala-de-visitas, mas no aposento imediato – espécie de gabinete onde tinha João da Cunha cama para descansar, papeis, roupas e armas.
Á luz amarelenta de um candeeiro, colocado sobre uma secretária de forma de piano, lia o senhor de engenho, para os amigos ouvirem, as ultimas regras de uma carta que recebera de André da Cunha, morador em Olinda.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.