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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

A casa de Liberato estava situada dentro do cercado que, beirando o rio em linha reta, de norte a sul, ia morrer na mata virgem, limite natural das terras pertencentes à engenhoca. Era fraca de construção, mas podia considerar se uma verdadeira casa de campo por sua bonita aparência, pela vista que tinha para todos os lados, pelo alpendre circular e pelo meio peitoril de madeira que não contribuía pouco para a sua rústica elegância.

A pequena distancia tinham sido edificadas três casas menores e menos vistosas do que a primeira. Em uma destas morava o genro, nas outras duas os filhos do crioulo. Nos fundos do cercado via se outra casinha que na forma arremedava a casa grande. Pertencia a Gabriel que, à sombra do irmão, aí vivia com sua mulher e filhos, na paz do Senhor.

Sem ter escravos nem dispor de grandes meios pecuniários, com o auxílio de Gabriel, Sebastião, Ricardo e Vicente, plantava canas, fazia roçados e vazantes, e, no tempo próprio, fabricava açúcar e rapaduras, desfilava aguardente, e desmanchava mandioca que lhe dava farinha para todo o ano.

Viviam em perfeito acordo aquele pai, aquele irmão, aqueles filhos, aquele genro, cada um com sua mulher e seus filhos, e todos dando os mais bonitos exemplos, que se conhecem, de união, auxílio mútuo, recíproco respeito e comum felicidade.

Na engenhoca ficaram todos ignorando o verdadeiro motivo da jornada à mata. Liberato, para maior segurança dos seus desígnios, havia recomendado aos companheiros o mais rigoroso segredo. E como tinham eles por costume caçar pacas e tatus uma vez por outra, quando fazia luar e o tempo estava enxuto, não houve quem duvidasse da palavra dos caçadores. Quando, porém, se soube do acontecido por boca de Luísa, e pelo vestígio da atrocidade que Florinda trazia na face, a qual bem estava dizendo donde havia procedido, a inquietação e o susto vieram tomar o lugar ao sono e ao repouso a que se achavam entregues os habitantes da engenhoca.

Raiou finalmente o dia longamente suspirado pelos que da meia noite até o amanhecer não haviam tido olhos para dormir, mas para chorar.

O sol espargiu a luz suave sobre o sertão, e com ela despertou a natureza. Inspirando as aves, colorindo os campos, e permitindo ver no espelho sereno das águas do Tapacurá o belo céu que nele se refletia com os seus esplêndidos matizes, essa luz vivificadora restituiu ao deserto o movimento e a vida que as trevas tinham ocultado debaixo de seu espesso véu.

Com a tornada do dia, ressurgiu em todos a confiança, só não em Luísa, que via próximo o termo da vida de sua mãe privada novamente do uso da fala por lhe haver voltado a congestão.

Chegou a hora do almoço, a do jantar, e finalmente escureceu de novo sem que os caçadores houvesse volvido a seus lares. Então a consternação tornou se geral e verdadeiramente cruel.

As famílias reuniram se todas na casa grande para se protegerem em caso de perigo que logo tiveram por iminente.

Três dias se passaram nessa aflição que se não pode descrever mas que facilmente se imagina.

Rosalina pensou de uma vez em ir pedir socorro no povoado, mas a quem ? O capitão mor achava se no Recife, e o povoado, que um século antes constava de uma capela dedicada a Santo Antão, e de meia dúzia de casas, pouco mais era do que isto na época em que se passou esta história; preciepresentação.

— Parece me que as caiporinhas se escaparam — disse Joaquim.

A esta voz todos os malfeitores correram à porta principal sobre cujos portais descansavam uns restos de caibros incendiados.

Descarregando então os coices dos bacamartes sobre a porta, fizeram na em pedaços, e invadiram o estreito espaço aonde as chamas ainda não haviam chegado.

Ao mesmo tempo um grito, a que melhor se chamara o eco de uma angústia longamente recalcada e de súbito desprendida, dominando o estrondear do incêndio, veio ressoar no pátio.

— Minha mãe, minha mãe não morrerá no fogo !

Então viu se uma cena horrivelmente bela. Luísa, saltando por cima da caliça e dos enxaiméis abrasados, ganhava o pátio com Florinda nas costas, semelhando uma visão ígnea, fantástica e sobrenatural.

Os malvados, sem se podarem governar, voltaram um passo atrás, não tanto pela estranha e fugitiva aparição, como principalmente por verem no lugar ocupado, havia pouco, por aquelas contra cujo pudor a sua brutal concupiscência se aguçava, pequenos troncos carbonizados em torno da mesa sobre a qual ardia nesse momento última imagem.

— Diabo ! — bradaram com raiva concentrada os algozes, mais dignos de compaixão do que as vítimas.

— Todas mortas ! — acrescentou o Mulatinho com uns longes de pesar que acusava a malograda e lasciva esperança.

— Só nos resta uma — disse o Trovão, correndo em busca de Luísa, que havia caído quase sem sentidos no terreiro junto ao cadáver de Matias.

— Cá está ela.

— São duas, são duas.

— Esta é minha — exclamou o Trovão, acercando se de Florinda para assenhorear se dela.

(continua...)

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