Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
– Sr. vice-rei – observou o artista – a cidade tem montes de-mais, como V. Exa diz; creio, porém, que ela ainda precisa mais de aterros do que de arrasamentos.
– E por que não faremos aterros à custa do outeiro que arra-sarmos?
O artista não respondeu, porque sorria pela quarta vez ao ver que Luís de Vasconcelos tomava pelo mesmo caminho por onde viera.
– Má direção vamos seguindo, Sr. vice-rei – disse ele; terá V.Exa de passar pela margem da lagoa do Boqueirão, que a esta hora, dizem, derrama em torno miasmas pestíferos, e a zamperini ainda não cessou de todo. Talvez fosse melhor ir buscar a rua do Lavradio.
– Onde mora o espanhol D. Pascoal, que toca guitarra excelentemente, acompanhando as suaves cantigas de sua filha Pepita, cujos brilhantes olhos pretos e formosa cabeça fazem o encanto de certo artista meu amigo. Não é assim, mestre?
– É por certo assim, visto que V. Exa o diz. Mas quer me parecer que a menina Susana, que mora na casinha da lagoa do Boqueirão, é ainda mais bonita e tem voz mais suave do que a Pepita.
O vice-rei voltou-se para trás, encarou Valentim e perguntou:
– Então...
– Então é que eu juro por minha alma que os vice-reis também têm coração, e que V. Exa gosta muito da menina Susana.
Luís de Vasconcelos bateu no ombro de Valentim e disse-lhe:
– Os vice-reis também têm coração. Mas às vezes não se perdoa a eles o que se desculpa em um artista. Vamos. Acabemos a noite como a começamos: seja uma noite de imprudência, e ao mesmo tempo de segredo.
Estavam perto da lagoa, quando pararam, ouvindo a voz doce e melancólica de Susana, que cantava uma balada, da qual repetirei uma estrofe, porque tem a cor e a simplicidade daquela época.
Em S. Bento deu um’hora,
No Colégio deram duas; Vede que horas são estas
Que eu por ti ando nas ruas!
– Ah! meu bem! não venhas cá,
Não venhas, prenda querida,
Vede que eu sou impedida, Tenho impedimento forte.
– Quem ama não teme a morte,
Quem teme, não sabe amar;
A cada passo que dá Pisa logo no perigo.
Vive sempre a suspirar Anda sem sossego ter: Assim mesmo, desta sorte, A noite te venho ver!
Não modifiquei em uma única palavra a poesia deste canto; reproduzo-a com todo o seu merecimento especial e com todos os seus defeitos, até mesmo de gramática; sinto não poder também dar uma idéia da música, que, aliás, ouvi por vezes em minha infância, e que então me pareceu cheia de doçura e de melancolia.
E o pior é que o gosto e a originalidade desses cantos, cuja música tinha um caráter que a fazia distinguir da música característica de todas as outras nações, têm-se ido perdendo pouco a pouco, sacrificada ao canto italiano, cuja imitação é, desde alguns anos, o pensamento dominante dos nossos compositores. As modinhas e os lundus brasileiros quase que já não existem senão na memória dos antigos; foram banidos dos salões elegantes e com todos os costumes primitivos, à semelhança das aves que, espantadas dos bosques vizinhos do litoral pelo ruído da conquista dos homens, fogem para as sombrias florestas do interior. Lá se acham proscritas, e felizmente ainda conservadas com a sua patriótica pureza no seio dos vales e no trono das montanhas, onde a população agrícola as asila em seus lares, vive com eles, alimentando a flama das recordações passadas que o estrangeirismo apagou nas cidades.
Para a música característica brasileira isso é uma verdadeira calamidade, e a Ópera Nacional, recentemente criada, se quiser ser nacional, deve opor-se à continuação de tão grave erro, excitando os nossos novos e talentosos compositores a escreverem naquele gosto que, bem aproveitado pela arte, pode produzir obras originais e de incontestável merecimento.
Mas... é conveniente não deixar o vice-rei tanto tempo esquecido na rua.
Luís de Vasconcelos, que tinha parado por alguns instantes a ouvir as primeiras notas do canto de Susana, disse logo depois a Valentim:
– Mestre, é verdade: amo aquela mulher. Agora, porém, nãohá aqui nem vice-rei nem artista; devemos supor que há somente dois curiosos um pouco apaixonados, um pouco imprudentes, mas em todo o caso honestos. Vamos ouvir de mais perto o canto de Susana; há ali uma moita de arbustos que nos será propícia. Veremos e ouviremos sem ser vistos.
– Já falou alguma vez àquela menina, Sr. vice-rei?
– Nunca.
Mestre Valentim seguiu Luís de Vasconcelos, que, cauteloso,
penetrou na moita de arbustos e foi colocar-se tão perto da palmeira que se
achou quase ao lado de Susana.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.