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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Qual ? uma cabeça de fogo : dizem que é capaz até de ler latim como o Sr. reverendo vigario : falia que parece um advogado, e anda sempre com o juizo por esses ares fora...

— E feia como um bicho, teve a boa idéa de vir esconder-se na roça...

— Bella como uma rosa, perigosa como uma feiticeira, tentadora como o diabo...

— Compadre Baptista, quer me parecer que o senhor tem sua queda para poeta ?...

— Então?... improviso meus versinhos quando canto em desafio nas nossas noites de fado...

Eu logo vi : e ainda não se soltão os cães?...

— Agora.

Dous escravos approximárão algumas trclas de cães, estes, soltos, sacudirão as caudas, e por alguns momentos andando em torno a rastejar com os focinhos o cheiro da caça, sahirão logo depois, e desaparecerão.

Os caçadores forão seguindo, e a breves passos achárão-se juntos de um arroio que corria sobre um leito de pedras.

— Fique aqui, disse Baptista, terá uma caçada certa, e para distrahir-se, subindo áquelle ingazeiro, verá á sua vontade a fazenda do Sr. Guilherme, e o sitio do compadre Pereira. Até logo.

Baptista internou-se na floresta.

O dia vinha apenas rompendo.

Dentro em pouco os latidos dos cães annunciavão a descoberta da caça, e passada uma hora Luciano, disparando o primeiro tiro, alcançou a primeira victoria.

Tres cães chegarão ao mesmo tempo, arfando de fadiga, mas ufanos de seu triumpho :

o estudante deixou-os descançar por algum tempo, e logo depois banhou-os na agua fresca do arroio e outra vez os lançou na floresta.

Ao longe ouvião-se os gritos de Baptista incitando os cães que lhe respondião latindo, como para demonstrar que zelosos proseguião na sua empreza; mas os latidos cada vez se desprendião mais afastados.

— Creio que terei de esperar muito tempo ; disse comsigo Luciano.

E sem o pensar, lembrou-se do ingazeiro.

Luctou um pouco com a própria consciencia; vencido porém, olhou cuidadoso em torno de si, e certo de que se achava absolutamente só, dirigio-se para o ingazeiro, e subio a elle.

O sol brilhava ; era a sua primeira hora.

Luciano vio um panorama bello e magnífico dilatando-se a seus olhos ; indifferente porém a todos esses encantos da natureza, embebeu suas vistas na casa e no campo da fazenda de Guilherme, e alli as esquecia involuntariamente, quando estremoceu escutando um canto melodioso entoado por uma voz de mulher.

Olhou... e vio...

O sitio de Pereira estava por assim dizer debaixo dos seus pés, e a mais curta distancia do que havia calculado, e uma mulher, de figura graciosa, e toda vestida de branco dirigia-se cantando para um bosquesinho, onde a cachoeira formada pelo arroio cahia, espraiava-se e dava lugar a um lago.

Luciano deu um salto do ingazeiro abaixo e sem reflectir um só momento desceu o monte por entre as arvores, desejoso de ver de mais perto a sobrinha de Antonia, que segundo dizia Baptista, tinha cabeça de fogo, era capaz de ler latim como o vigario, fallava que parecia um advogado, e andava sempre com o juizo por esses ares fora...

O canto tinha cessado : succêdera-lhe silencio profundo.

A medida que se ia aproximando, o estudante media cauteloso os passos e procurava fazer o menor ruido possível, empregando para isso toda a sua habilidade de caçador : ás vezes ria-se pensando na decepção por que ia passar esbarrando diante de uma mulher feia, ou pelo menos desgeitosa...

Emfim, chegou á entrada do bosquesinho, e por entre as arvores olhou, e ficou embevecido...

A sombra de uma arvore frondosa, sobre cujo tronco se sentara, estava uma moça talvez de vinte annos, delicada, formosa, encantadora ; lendo attentamente um livro, que segurava com suas mãos pequeninas e brancas ; seus cabellos negros cahião em aneis graciosos e immensos sobre uns hombros e um collo admiraveis; seus olhos, que ás vezes levantava para o céo, erão grandes, negros e brilhantes.

Baptista não mentira: aquellamoça era realmente encantadora.

Como porém esta creatura angélica, que parecia ter sido educada com tanto zelo, com tanto extremo, esta moça cujas mãos erão tão finas, e tinhão a cór tão branca, esta menina tão delicada, e por assim dizer de fôrmas tão vaporosas e de espirito que se dizia tão romanesco, viera esconder-se, sepultar-se naquelle obscuro cantinho, na casa de tão pobres lavradores ?

Não era, não podia ser uma infeliz mulher perdida pelo vicio, não : a pureza brilhava nos seus olhos e na sua face.

Como explicar então o mysterio ?...

O estudante não se movia do lugar onde estava, com as mãos no peito comprimia a respiração anhelante : dominava-o sobretudo o receio de ver ao mais leve ruido desapparecer como um sonho aquella mulher encantadora.

(continua...)

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