Por José de Alencar (1872)
- De quê?... É bom que o dinheiro vá-se acostumando conosco, e o meio é chegarmo-nos àqueles que o têm.
- Receio ao contrário que nossa pobreza o importune, indo procurá-lo no meio do luxo.
A discussão prolongou-se. Os dois amigos ainda estavam empenhados nela quando chegou o Daniel com a incumbência que sabemos. Ricardo, a princípio surpreso pelo convite que não esperava, não hesitou na resposta que o português transmitiu a Guida. Fábio tomando o amigo de parte instou com ele para aceitar a fineza do capitalista; mas nada obteve.
- Decididamente, assim não iremos para adiante; é desenganar, disse Fábio muito contrariado.
- Não tens razão; é justamente assim que podemos merecer consideração, não aceitando uma posição menos digna.
Reflete bem: que figura ridícula não havíamos de fazer naquela sociedade?
- A mesma que fazem os outros. Nem todos que freqüentam a casa do Soares, são ricos.
- Decerto; mas os que não têm um tratamento correspondente ou são amigos ou parasitas. Nenhum destes papéis nos cabe.
Fábio levantou os ombros. Tornou-lhe Ricardo:
- Não sou desses homens que ostentam um desprezo fingido pelo dinheiro e odeiam os favoritos da fortuna. Ao contrário, quando a riqueza é honestamente adquirida, eu a respeito e estimo, porque representa a meus olhos o fruto, tão legítimo como brilhante, do trabalho; mas em caso algum lhe sacrificarei minha dignidade: não me farei cortesão dessa como de qualquer outra grandeza da terra. O lisonjeiro para mim é um eunuco moral.
- Então um pobre não pode sem bajulação ter relação com pessoas ricas? Que doutrina!
- Sem dúvida que pode, quando se estabelece uma certa igualdade social por virtude de alguma causa, como, por exemplo, a amizade, o parentesco, uma posição elevada, a consideração pública, etc. Um escritor notável, embora nada tenha de seu, pode aceitar a hospitalidade do milionário, porque trata de igual a igual; se este é rei na praça, ele é rei na imprensa. Sua presença, assim como a de todas as outras pessoas distintas, é honra que os ricos solicitam.
- Neste caso, tu que tens talento e escreves bem, devias aceitar o convite; era uma honra que fazias ao Soares.
- Obrigado pela ironia.
- Onde está a ironia?
- Somos dois pobretões obscuros; eu podia acrescentar de minha parte, e desconhecido, por que realmente o sou nesta grande cidade. Em casa de um milionário, no meio de uma sociedade habituada ao luxo e às grandezas, qual seria nossa posição? Creio que a classifico bem dizendo que faríamos o ponto de transição entre o parasita e o criado; formaríamos o elo desses dois anéis da cadeia.
- Com efeito! Modéstia tão requintada degenera em orgulho. Entendes que não sendo dos primeiros, te rebaixas?
- É outra fragilidade que eu não tenho, Fábio, esse fofo orgulho da pobreza, que serve de forro a um fingido desprezo da riqueza. Não me envergonho de ser pobre, de parecê-lo e confessar em qualquer ocasião; mas estou longe de fazer da minha pobreza uma espécie de dorna de Diógenes. A falta de dinheiro pesa-me, sem contudo me acabrunhar; e justamente porque ela me pesa, me elevo mais em minha consciência, sentindo-me incapaz de cobiçar a fortuna adquirida por meios lícitos. Estás portanto enganado, meu amigo; não tenho orgulho, mas dignidade.
- É a mesma coisa com diverso nome.
- Não: o orgulho é um impulso para elevar-se acima dos outros; a dignidade é a firmeza, que não consente descer da posição que nos compete. Ora, cada degrau que eu subisse da escada do Soares, era um passo que descia do meu nível. Isolado no meio de tantos convidados, desconhecido naquela sociedade habitual, perguntariam: “Que veio aqui fazer este sujeito? – Prestou um pequeno serviço à filha do comendador, responderia algum íntimo; se fosse um criado, dava-se uma gorjeta; mas como é um pobre bacharel, convidaram-no a jantar”.
- Tu não conheces a sociedade do Rio de Janeiro; nunca a freqüentaste. Julgas por São Paulo, ou por informações falsas.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.