Por José de Alencar (1875)
Êsses dois homens formavam no físico, tanto como no moral, perfeito contraste. De Campelo já se disse que era sujeito robusto e corpulento, de marca superior ao estalão humano. Agrela, franzino e de exígua estatura, parecia ao lado do fazendeiro um espadim à fiveleta de um matamouro.
Quanto ao moral, o que tinha o capitão-mór de passado e formalista, pagava-lhe o ajudante em viveza e prontidão. O tempo que o primeiro consumia a tomar uma resolução, bastaria ao outro para realizá-la.
Daí provinha naturalmente a volubilidade e e inconstância do gênio do moço, assim como a tenacidade do velho em sustentar sua resolução, uma vez tomada.
Entretanto por contraprova do anexim, que – dois gênios iguais não fazem liga, – fôra precisamente o contraste daquelas duas naturezas a solda que as unira a ponto de já não fazerem mais de uma pessoa, embora repartida por dois corpos.
O capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, alí presente, não seria o mesmo opulento fazendeiro que era, comandante das ordenanças da freguesia de Santo Antônio de Quixeramobim e o maior potentado daquela redondeza, se arredassem dele o Agrela, seu ajudante.
Equivaleria a amputar-lhe uma faculdade d’alma e a mais ativa. A energia, de que o velho dera tantas provas e que lhe granjeara admiração e rspeito, desapareceria como a rigidez do aço privado de sua têmpera.
Nem podia ser doutra forma, pois essa energia resultava da combinação dos dois caracteres. Com a volubilidade de seu gênio, Agrela tinha em qualquer circunstância um alvitre pronto e o comunicava ao capitão-mór, em cuja vontade lenta, mas robusta, essa lembrança tomava logo a fôrça de uma inabalável resolução.
A mesma transfusão operava-se acêrca do pensamento. O capitão-mór, que tinha aliás o senso claro e reto, para não dar-se ao trabalho de meditar, incumbia o seu ajudante dessa ocupação secundária e limitava-se a colhêr a suma. Não admira, pois, que, apenas retirado o padre Teles, se voltasse o Campelo para o mancebo e lhe perguntasse:
— Que vos parece, Agrela?
— De que, sr. capitão-mór? Do que disse o padre Teles?
— Sim, homem; estais pelo milagre?
— Minha idéia é, como já disse ao sr. capitão-mór, que estas coisas não são comuns; mas também não se podem chamar impossíveis. Elas têm uma causa natural, conhecida dos que especulam êstes arcanos da natureza.
— Há então uma causa oculta; e essa tanto pode ser milagre como feitiçaria.
— O sr. capitão-mór há de ter visto muitas vezes, como eu, o passarinho que vai piando meter-se êle mesmo na bôca da cascavel.
— É verdade.
— Aí está uma coisa bem natural e de todos os dias que já ninguém estranha. Êsse terror que a cobra causa ao passarinho a ponto de obrigá-lo a entregar-se, eu acredito que um homem forte e valoroso inspire a outro homem, quanto mais a um tigre, a ponto de torná-lo manso e inofensivo. E o sr. capitão-mór tem em si uma prova dêsse predomínio.
— Então pensais que em tudo aquilo não houve senão a valentia do rapaz e o mêdo da onça?
— Assim me parece.
— Acertastes, Agrela; não foi outra coisa.
Nesse instante viu o ajudante a Arnaldo que subia a encosta na direção do terreiro; e indicou-o ao capitão-mór.
XIII – Explicação
O sertanejo curcou-se e beijou a mão ao fazendeiro, costume patriarcal já em voga no sertão e que êle praticava por um impulso d’alma, pois habituara-se desde a infância a respeitar no velho Campelo um outro pai, além do que lhe dera a natureza.
Arnaldo e Agrela trocaram fria saudação. Havia entre ambos um afastamento, que já o capitão-mór havia percebido com pesar, pois desejava ligar entre si os dois mancebos, como os trazia unidos em sua afeição.
O ajudante foi arredando-se à feição de retirar-se.
— Onde ides, Agrela? perguntou Campelo.
— Alí, ao quartel!
— Pois ide! disse o capitão-mór acenando-lhe com a mão.
O velho sentia que ia cometer uma fraqueza e não queria testemunha.
— Então, qu’é da onça?
— Lá se ficou no mato.
— É de bom acomodar, tornou o capitão-mór a rir.
— Ah! somos conhecidos velhos, respondeu o rapaz no mesmo tom.
— Como então?
— É uma história.
— Pois conta lá.
— Se não tem que contar!… Coisas do mato.
— Vai dizendo.
— Eis o caso. Essa dona e seu companheiro apareceram aquí na vizinhança haverá um ano. Como eu ando sempre a bater por êstes matos, parece que os importunava; e então assentaram de acabar-me a casta. Não dava mais um passo, que não andasse no rasto algum dos dois camaradas. — Não eram maus os pagens!
— Nâo eram, não; mas a mim é que não me serviam, que sempre foi meu costume andar só, pois é o meio de andar seguro. Então passei a saber dos tais amigos o que pretendiam dêste cearense.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.