Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
E desde então eu amo os botões de rosa sobre todas as flores; não quero nenhuma outra flor no meu cabelo. Tenho por eles uma espécie de culto. Porque sempre me parece estar vendo o meu coração encerrado em um botão de rosa.
CAPÍTULO XI
VELANDO E SONHANDO
AO BAFEJO dos zéfiros, e ao clarão do luar, uma jovem e um mancebo velavam à mesma hora.
Essa hora era sossegada, muda, misteriosa e bela: era além da meia-noite.
Depois de muito tempo, depois de tanto tempo que já a velha Irias se não lembrava do dia em que pela última vez fechara as janelas do sótão do “Purgatóriotrigueiro”, abria-se enfim aquela dessas janelas que deitava para o fundo, e junto dela sentara-se um mancebo.
No “Céu cor-de-rosa” duas mãozinhas brancas e delicadas tinham levantado uma vidraça; e uma jovem encantadora se recostara a essa janela, que era a de seu quarto, e que se abria para o jardim.
Esses dois jovens, que não podiam ver-se, ficaram aí silenciosos... meditando.
Respiravam ambos uma atmosfera perfumada pelas exalações das flores do jardim do “Céu cor-de-rosa”.
E os pensamentos que deixavam escapar essas duas almas virgens, subiam talvez ao céu nas asas de faceiras auras embalsamadas de aromas.
O mancebo, que ali estava meditando, tinha apenas vinte anos, e a moça contava somente dezesseis.
Em que pensavam eles?...
Tão moços, tão novos, com a ligeireza da adolescência, com o frescor e doçura da primavera da vida, por que estão, e como podem eles dois estar presos a uma só idéia, pensativos e melancólicos?...
A meditação pertence à velhice; e todavia aqueles dois mancebos, com os olhos no céu e o coração na terra, meditavam também.
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Celina e Cândido começavam a pagar um tributo sagrado que à natureza se deve... sem querer... sem pensar em tal, eles deviam prender-se pelos pensamentos primeiro, e finalmente pelo coração...
Tinham-se retirado as visitas, os amigos que haviam formado o último serão do “Céu cor-de-rosa”; a “Bela Órfã” achava-se enfim a sós no seu quarto, onde duas horas antes contara a suas amigas o sonho do botão de rosa...
Três anos antes, também em uma noite, ela conversara com duas amigas, e depois viera deitar-se pensativa e triste como o fizera agora
Mariana entrou no quarto de Celina, e abrindo as cortinas do leito, deu-lhe um beijo e disse:
– Dorme bem, Celina.
E retirou-se. Uma lágrima rolou pelas faces da “Bela Órfã”.
Três anos antes ela estava deitada como então, e fora sua mãe quem lhe viera beijar, e dissera:
– Dorme bem, Celina.
A semelhança dessas duas noites, a coincidência dos fatos, excitaram tanto a imaginação da moça, como a entristecia a diferença que ela notava em algumas das pessoas que representavam nesses fatos.
E como há três anos antes, ela ficou refletindo, não querendo refletir; primeiro muito triste... muito triste, pensando em seus pais que já não viviam... e depois levada por sua alma muito longe... muito longe... como a flor que cai na torrente, e que por ela é carregada até onde não pode prever...
Depois ela se lembrou de seu sonho... seu belo sonho, em que um envoltório de pétalas de rosa lhe escondia o coração, e um anjo com o rosto de sua mãe velara por ela.
A “Bela Órfã” teve vontade de sonhar de novo... fechou os olhos, ao menos para ver sua mãe com vestes de querubim.
As diversas cenas daquele sonho de virgem, que todo transpirava anjos, inocência e flores, se foram representando na imaginação fervente da “Bela Órfã” como se ela estivesse vendo tudo...
Primeiro o formoso prado de tapete cor de esmeralda, com seu outeirinho verde e caramanchão florido, com seus montes de palmeiras, e seu lago de águas límpidas e de areias de ouro.
Depois a multidão de encantadores meninos com suas cestas de flores, e a música que vinha do céu, os perfumes que embriagavam...
Depois o seu coração arrancado, plantado e regado com suas lágrimas, e as risadas dos meninos que fugiam...
Depois o anjo com o rosto de sua mãe, que vinha velar pelo seu tesouro, guardar o coração de sua filha.
E a roseira que crescia... e os botões que nasciam...
E o rico senhor do batel de prata, que desaparecia...
E o velho do carro majestoso que se sumia...
Faltava o mancebo da cesta de flores...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.