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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Diga-se desde já, para anteparar estranhezas futuras, que o brasileiro andava cismático e a modo de melancólico.

Não se descosia com ninguém, porque a irmã, sua confidente, ficara a governar a quinta dos Choupos. É, todavia, fácil entrar nas cavernas daquele peito, sem embargo do enxundioso arnês.

Fialho conjectura que Ângela o aborrece. Nem um sorriso, nem uma carícia, nem uma palavra que não seja resposta concisa e seca. Ele não ousa argüi-la; mas, se mansamente se queixa, Ângela responde com um franzir de testa e um silêncio tétrico.

Principia o arrependimento a desbastar-lhe as opulências musculares, e o fígado a dar rebates de desordem intestinal. Recorre aos emolientes; mas a esposa, como ele revelou ao compadre Atanásio, manda-lhe cingir as papas por um galego.

Ângela faz isto inocentemente. E talvez que, matrimoniada com um arcanjo, não pusesse mão em linhaça, se os arcanjos pudessem sofrer do fígado.

Debaixo das telhas do próximo passam agonias ridículas que não viu o dom Cleofas de Le Sage.

Vitorina está sempre a procurar na cara do amo sinais de morte. Se o vê mais amarelo, ou mais vermelho, com o nariz menos sucoso, e os olhos mais encovados, diz logo a Ângela: “O homem não tarda!”. A frase era elipticamente econômica; o não tardar era ir depressa para a sepultura.

Resolvido a viver e distrair-se, Fialho abriu escritório na Reboleira e comprou navios. E distraía-se. A bailes e teatros não ia, nem Ângela os desejava. Como é já notório, em substituição à missa, comprou oratório para uso da esposa. Hermenegildo, em matéria de religião, era bestial.

Decorreram seis meses. Ângela foi mudando salutarmente para ambos. Estava afeita. Conversava com melhor sombra; mas acariciava um gato para sentir o prazer nativo de suas aveludadas mãos. Hermenegildo olhava para o lombo luzidio do bicho, e espumava umas cóleras que engolia azedas como vômito de digestão derrancada.

Na primavera deste ano, o brasileiro foi à terra, e só, para queixar-se à irmã nestes termos:

― Ela não me tem casta de amor nenhum. Passam-se dias que não dá palavra, e noites que adormece a rezar e lá fica. Este casamento foi o diabo! Cabeçada assim nunca a deu homem de juízo! É bonita, mas de que serve? É como quem tem um painel em casa. Se é fidalga, isso cá a mim que me faz? Fidalga é a burra. Enfim, desde que me desenganei que não há volta a dar-lhe, lancei cá os meus cálculos, e já sei o que hei de fazer... Nada de me apaixonar.

Mulheres que me queiram não faltam. Eu me arranjarei como fazem todos.

A irmã deu-lhe bons conselhos, e recomendou-lhe paciência e juízo.

― Lembra-te, dizia ela, que a pobre menina fez uma promessa para te salvar da morte, e casou contigo sem amor.

― Então não casasse.

― Eu disse-to, e tu disseste que o amor vinha depois. Então espera que ele venha, meu filho.

― Agora vem! Olha que ela está-se a fazer velha; e de aborrecida já nem parece a mesma. Está mais amagrada, e branca como a cal da parede.

― Coitadinha! – atalhou Rita, condoída.

― Coitadinho de mim!

― Mas tu estás bem gordo, Hermenegildo!

― Bem haja eu! Pudera não! Vou fazendo pela vida.

― Mas não a mortifiques, que ela é um anjo.

― Não me cantes lérias, Rita! Aquela mulher tem lá no interior outra paixão antiga. E queira Deus ou o diabo que ele me não pregue alguma, que eu não sou para graças. À primeira que me fizer, ponho-me ao largo.

― Jesus! Tu estás aí a asnear, homem de Deus! Pois uma senhora tão boa, tão rezadeira...

― Ora, contos, minha amiga; as que rezam muito lá sabem por que o fazem. Se elas não tem pecados, p’ra que rezam? Responde lá, se és capaz!

― Tu és herege, Hermenegildo!

― Qual herege! Sou felósefo, é o que eu sou. E era.

Enquanto ele filosofava em linguagem correntia – mérito de que não se gabam muitos de seus confrades – lances extraordinários passavam na vida de Ângela.

Estava ela à janela em um Domingo de manhã quando viu subir da Praça Nova uma mulher de mantilha, que a fez estremecer vista de longe. Desceu de corrida ao primeiro-andar e abriu a janela a tempo que a mulher passava defronte. Duvidou, acreditou, hesitou, e enfim disse em voz alta à criada que a seguira assustada:

― Será Joana?!

A mulher, que passava, voltou o rosto rapidamente, deu de olhos em Ângela e estacou.

― É ela, é ela! – confirmou Vitorina.

― Suba Sr.ª Joana! – disse a senhora agitadamente, correndo a recebe-la no pátio.

― Ó minha senhora – exclamou Joana – Ó meu Deus! Pois eu encontro aqui a Sr.ª D. Ângela! Ainda torno a ver esta senhora!

Abraçaram-se enternecidas e subiram sem se desenlaçarem.

― Como ela está acabada! – disse Vitorina benzendo-se

(continua...)

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